Entre tantos fatos reveladores e emblemáticos no decurso do processo eleitoral de 2026, importante jogar luz sobre o evento da queda e instabilidade na Ibovespa e no mercado financeiro brasileiro, registrado logo no primeiro dia útil após o resultado do segundo turno das eleições que coroou a vitória histórica da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No dia seguinte ao pleno eleitoral, já com o presidente Lula consagrado pelo voto popular para um quarto mandado, a Bolsa de Valores abriu em franca queda, tendo que ter suas atividades interrompidas por 30 minutas (circuitbreaker) na tentativa de conter o movimento de baixa. Naquele dia a Bolsa simplesmente despencou, fechando o pregão com um tombo superior a 13%, uma das piores quedas da história.
Os operadores do mercado financeiro brasileiro já tinham decidido que Flávio Bolsonaro, apesar de ser quem é, seria o novo presidente do Brasil. Os famigerados investidores da Faria Lima inclusive apostaram vultosas quantias de dinheiro na vitória do candidato representante do programa da extrema-direita. Para os donos do capital especulativo, o processo eleitoral não passava de um mero jogo de cartas marcadas. O sufrágio universal, expressão maior da soberania popular, era apenas um detalhe que poderia ser facilmente superado por meio de um esquema de manipulação e difusão sistemática de mentiras via controle dos algoritmos por parte das big techs.
A figura e trajetória do candidato do mercado financeiro nunca foi importante para os donos do capital. O fundamental sempre foi o compromisso com a agenda das reformas neoliberais, pesadamente regressivas no campo dos direitos sociais. Por isso vigorou a estratégia de esconder o real programa que a candidatura de Flávio Bolsonaro representava. Programa que acentuaria, em linhas gerais, a concentração de renda, em uma lógica de intensificação das injustiças sociais, desamparando as camadas sociais mais pobres e vulneráveis, ao mesmo tempo em que promoveria o avanço mais célere da destruição ambiental. Flávio Bolsonaro, neste ponto, tinha o perfil adequado para a tarefa suja em prol do grande capital improdutivo – já trazia um histórico de indícios de sistemática prática de corrupção, ligado às milícias, era investigado, ao mesmo tempo em que se revelava inescrupuloso, cheio de preconceitos e nem mesmo sabia dançar. Flávio Bolsonaro, como em um espelho da história, refletia a imagem mais fidedigna de uma elite branca perversa, atrasada, colonial, preconceituosa, antipovo e sem a mínima consciência ética e senso de humanidade que domina o Brasil desde sua fundação. Sem dúvida, aquele era o candidato modelo, para avançar e aniquilar com os parcos direitos dos mais pobres e entregar aos interesses estadunidenses os recursos naturais do país.
Mas a equação dos donos do capital improdutivo e do poder, em um grave erro de leitura histórica – naquilo que seria para eles mais uma cartada no jogo de azar eleitoral –, não considerou a mão decisiva na mesa de apostas: o povo politicamente organizado. O povo brasileiro guarda uma longa história de resistência e luta. Foi essa população que resolveu, contra todas as apostas dos operadores do mercado, assumir o protagonismo do pleito eleitoral, definindo um final inusitado e potencialmente revolucionário, impondo uma derrota retumbante ao projeto fascista. Os dados, a partir dos relatórios das urnas eleitorais, revelaram que os mais pobres, aqueles que desde sempre tinham sido banidos para as regiões periféricas dos grandes centros, que historicamente são descartados nas dinâmicas dos jogos de poder, sobretudo a população negra, resolveram entrar no jogo, decidindo qual seria o resultado final: Lula reeleito para seu quarto mandato presidencial.
Se os especuladores financeiros apostaram seus milhões dando como certo a vitória do programa do extremismo de direita, o povo brasileiro – em sua vasta maioria, a população negra e periférica – decidiu diferente, votando pela soberania, pela democracia, pelos direitos de cidadania e contra todas as ameaças de retrocesso político, econômico, social e religioso. Foi uma eleição histórica, com a juventude estudantil na vanguarda, tomando as ruas e as redes, convocando o país inteiro a fazer o “L” e votar, sobretudo, pelo futuro, pela esperança, pela utopia. Conhecer o rosto e perfil de quem realmente ganhou a disputa pela presidência do Brasil não é uma informação menor. Ao contrário, é um dado fundamental para compreender a direção que o governo reeleito de Lula deve imprimir a esse quarto mandado.
Há uma pressão, por parte do capital improdutivo, vocalizada nas análises da mídia corporativa, de que para conciliar o país, o governo Lula agora deve implementar o programa neoliberal, o mesmo que foi derrotado nas urnas pelo povo brasileiro. Querem definir as pautas e as urgências para o novo governo, novamente em um jogo de cartas marcadas, que busca levar ao convencimento de que cortar direitos sociais é o único caminho para o desenvolvimento do país. No entanto, é preciso fazer valer a vontade popular. A democracia precisa então deixar de ser uma concepção meramente formal. O presidente Lula, em seu último ciclo na presidência, deve construir um governo atento aos anseios do povo, um governo popular, no mais estreito compromisso com a agenda da justiça social e ambiental. O povo brasileiro venceu uma importante batalha, tornando-se reluzente sinal de esperança para um mundo que tem insistido no discurso de fim da história, mas a luta por dignidade e justiça ainda está em curso. A tarefa histórica agora é alimentar, nas ruas e nas redes, forjando uma democracia radical, a utopia do reino da liberdade, apontando a autora revolucionária de um tempo de plena justiça.
Adelino Francisco de Oliveira é professor no Instituto Federal de São Paulo, campus Piracicaba.
