A Ilíada atribuída a Homero deve ser o segundo livro que as pessoas mais mentem ter lido. O primeiro, certamente, é a Bíblia. O terceiro? Desconfio que seja Guerra e Paz, de Tolstói. Nada científico, apenas achismo da minha parte.
No caso da Bíblia é realmente uma pena, pois a dimensão revolucionária de Jesus deveria ser óbvia para todos os cristãos. Jesus, entre muitas outras coisas, substituiu o exclusivismo identitário hebreu pelo universalismo, não havia mais um povo escolhido a ser salvo, mas a própria humanidade era agora acolhida por Deus.
Essa ideia de que todos são acolhidos por Deus me veio de maneira muito forte, eu que nunca fui muito religioso, apesar de católico não praticante, em recente visita à penitenciária Luis Ricardo JockStoduto, em Piracicaba, na rodovia Deputado Laércio Corte, SP 147, Km 132, como voluntário para uma oficina de literatura. O que senti ali é que Deus acolhe todos, acolhe inclusive os penitentes que lá se encontram, tanto (ou mais?) que o pastor bilionário em seu jatinho. É sério que isso precisa ser lembrado, gente?
Salve Dimas, aquele que morreu na cruz ao lado de Jesus e no instante final se arrependeu.
Já a Ilíada, que de certa maneira era uma espécie de bíblia para os gregos antigos, também nos poderia ser muito útil para lidar com os desafios da vida.
Vou descrever apenas um detalhe. No Canto IV há o famoso concílio dos deuses, e Hera, mordaz esposa de Zeus, tenta convencê-lo a deixar os aqueus (os gregos) destruírem Ílion, isto é, Troia. Hera precisa que Troia seja destruída e nisso tem o apoio de sua filha Atena, ambas se sentiram profundamente ofendidas quando Páris escolheu Afrodite como a mais bela deusa e, por isso, anos depois, ele recebeu também a mais bela mortal, Helena, através da influência divina de Afrodite que fez a então fiel esposa de Menelau abandonar o marido por uma aventura com o luminoso príncipe troiano.
Conversa vai, conversa vem, os deuses devem decidir o futuro da cidade das belas muralhas. Zeus argumenta que Troia nunca lhe faltou com respeito, com orações e homenagens, mas sua esposa e sua filha insistem tanto que ele acaba cedendo, com uma condição: ele agora terá o direito de destruir qualquer cidade preferida da esposa sem que ela reclame. Hera concorda.
O que esse canto nos ensina é que Troia sempre foi leal a Zeus, talvez mais que a maioria das cidades gregas, como Esparta ou a Ítaca do astucioso Odisseu, mas nada disso adiantou, forças incompreensíveis aos mortais decidiam seus destinos, mesmo que estes fizessem tudo que estava ao seu alcance para se proteger da fúria divina. O que a Ilíada pode nos ensinar é que não temos o controle de tudo, e que aceitar serenamente que certas coisas não podemos modificar é um caminho possível para a paz interior. Você pode tomar todos os cuidados, preparar-se ao máximo, mas a vida é incontrolável em seu núcleo, quanto mais cedo você aceitar isso, menos sofrimento terá.
Já Guerra e Paz, de Tolstói, em suas quase 1600 páginas, reserva seu maior ensinamento para a trajetória de Pierre Bezukhov. Jovem e herdeiro da maior fortuna da Rússia, Pierre passa a vida tentando encontrar um sentido para a existência. Ele descobre a paz interior e a verdadeira liberdade espiritual ao ser feito prisioneiro de guerra pelas tropas de Napoleão. Despojado de sua riqueza, marchando no inverno congelante, é no cativeiro que ele aprende com um camponês simples a beleza da resiliência e da aceitação da vida. Os séculos passam, a essência dos nossos conflitos permanece a mesma e a guerra, meus amigos, como diz a frase icônica do jogo Fallout, a guerra nunca muda.
Rafael Gonzaga é historiador, doutor em história social pela PUC-SP
(Imagem de capa: The Heroes of the Trojan War, Greek mythology. 1880).
