Com sua licença, eleitor (a)!

Com sua licença, eleitor (a)!

Se você está em dúvida sobre se irá votar ou em quem irá votar no segundo turno, por favor, me escute. Peço sua licença, me escute um bocadinho, que talvez algumas de suas dúvidas sejam minhas também. Me dê sua licença.

Por primeiro, irei votar – sim – não abro mão. Votei no primeiro turno e votarei no segundo e, mesmo que não tivesse votado no primeiro, votaria no segundo, não há impedimento. E, por falar em impedimento, coisa comum no futebol, vou votar porque não vou ficar no banco de reservas, ganhe ou perca, vou entrar no jogo. E aqui estou, vestindo a camisa do time, mesmo que não seja o meu de coração.

Ah, mas você não “gosta” do Lula? Nem eu morro de amores, pelo contrário. Mas, do Bolsonaro, morro de horrores. E, meu caro, minha cara, isso faz uma baita de uma diferença! E sabe uma das minhas dificuldades com o Lula? É que ele NÃO é de esquerda, ele mesmo já disse isso, mais de uma vez. Ah, mas você ouviu, leu, que ele é comunista? Lula NÃO é nem de esquerda, quanto mais comunista, me acompanhe.

Pegue lá desde seu primeiro mandato, quando foi eleito em 2003. Quem era seu vice? O industrial José Alencar, do PL (!), verdade que muito diferente do que é o PL de hoje, mas do PL. E pegue a “Carta ao Povo Brasileiro”, a tranquilização dos eleitores, não há o que temer (não confunda com Temer…). E tudo seguiu na tranquilidade, tanto que foi reeleito.

E quem é o vice agora? Geraldo Alckmin, ex-PSDB, e que, se você também sair do banco de reservas, der uma força, talvez vejamos o Alckmin como Ministro da Economia. LULA de esquerda? Não mesmo, e ele é honesto ao reconhecer que NÃO É DE ESQUERDA. Então, meu caro, minha cara, é só seguir nessa toada, ir acompanhando os sucessivos mandatos, que, creio, chegará à mesma conclusão.

Ah, mas você não vota no PT? Eu também não votaria, se houvesse outra opção – mas agora não tenho escolha. Parodiando um amigo: “não é o partido dos meus sonhos, mas afasta de mim meus piores pesadelos”. O pesadelo da indiferença com os que sufocaram na pandemia de Covid – mais de 700 000 mortos ! – mais de uma Piracicaba e meia sumiu do mapa (!), pelos dados registrados. E os que não foram diagnosticados? O pesadelo das crianças Yanomami, pedindo “Água mamãe, água”, até água potável lhes foi negada, busque. Quem é capaz de negar água a uma criança? Os corpos mirrados, os cérebros comprometidos para sempre, a fome alimentada pelo garimpo ilegal – o que abrandará em mim o pesadelo daqueles corpinhos – senão votar contra os que fecharam os olhos à dor do outro. Esse outro tão pequeno – crianças nunca deveriam sofrer. Busque a notícia de fevereiro de 2024, a pepita de ouro do garimpo, encontrada na residência de Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL).

Siga buscando, e veja, por exemplo o tratamento dado pelo Bolsonaro pai aos quilombolas, referindo-se ao seu peso em arrobas – como se fossem carne pendurada em um açougue. Sua declaração de que “pintou um clima” ao ver meninas venezuelanas de 14 e 15 anos, em uma comunidade em Brasília, foi em outubro de 2022 – busque. Cara eleitora, caro eleitor, tenho medo desse desprezo pelo outro. Parto do princípio, óbvio – alguém que pretende o cargo máximo da nação tem que ter respeito, solidariedade e saber que é o primeiro educador do país – seu exemplo, suas palavras, pesam.

Por essas e outras, não me absterei e, mesmo não sendo dos meus sonhos, votarei 13, votarei Lula, votarei PT, para tentar afastar de mim – de nós – os piores pesadelos.

 


Sergio Oliveira Moraes, físico e professor aposentado ESALQ/USP

 

CAPA: Charge de Edu Grosso.

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