Ao Mercado Tudo, ao Povo a Morte.

A única certeza que tive após assistir, atentamente e até por mais de uma vez, a gravação da reunião entre o presidente e seus ministros é que todos os esforços são destinados a atender aos anseios do mercado, ao povo sobra o abandono e a morte. Ao mercado tudo, às pessoas nada. É incrível, é inacreditável, é inaceitável o quanto o mercado tem a precedência em relação às pessoas. Este é o ponto substancial da reunião.

Talvez a pergunta mais importante seja sobre a natureza do mercado. O que é o mercado? O mercado seria uma ideia abstrata? Seria uma entidade espiritual ou divina? Por que o mercado é tão mais importante do que as pessoas reais? Ofato é que, no alto de seu pedestal divino, o mercado sempre aparece como algo com muitas exigências e direitos, mas sem nenhum dever ou responsabilidades.

O culto e idolatria ao mercado, que foi elevado à condição de um deus, desvela-se como o ponto chave daquela reunião ministerial. Todas as falas grosseiras e gestualidades rudes compunham um ritual sombrio, formalizando um pacto diabólico com o deus mercado. De um lado, a exaltação e defesa ferrenha dos interesses do capital e, de outro lado, a explicitação de um projeto de morte para o povo. São as duas faces perversas e inescrupulosas do mesmo vil metal.

Sem rodeios e nenhum pudor, de maneira aberta, o presidente e seus ministros passaram a destilar ódio ao país e seu povo, ao mesmo tempo que defendiam unicamente os interesses do dito mercado. Assistindo ao vídeo vai ficando claro que aquilo era muito mais do que uma mera reunião: era uma verdadeira conspiração contra o povo brasileiro, um escárnio contra nossa cultura, uma afronta contra nossos sonhos de cidadania.

Seria talvez tudo cômico, se não fosse a nossa tragédia distópica. Uma autêntica farsa, a expressão cabal da transparência do mal. É mesmo bem difícil destacar o que de pior foi dito naquelaroda de conversa pródiga em vulgaridades. O tema central deveria ser a articulação de políticas públicas de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. Mas mesmo diante da terrível crise de saúde, com o aterrador número de pessoas mortas, esta temática passou ao largo das preocupações dos senhores convivas, que se refestelavam em dizer bajulações, bravatas, deboches, injurias e toda sorte de grosserias e palavras chulas, sempre com o objetivo de acalentar o deus mercado.

Os palavrões, a vileza e a boçalidade de cada discurso talvez sejam o menos importante. A ênfase uníssona em torno de um projeto de destruição do país é o que salta aos olhos. A reunião apresentou uma equipe coesa, alinhada e motivada para cometer todas as formas de atrocidades contra a nossa dignidade, atacando também a beleza de nossa diversidade cultural e ambiental.

A reunião evidenciou que há um programa de morte em curso, uma guerra total declarada contra o povo. Corremos riscos severos, está em andamento um projeto autoritário, incapaz de dialogar, acolher e tolerar.Resta agora reunir as forças democráticas, comprometidas com uma perspectiva solidária de país, em uma sociedade sem pobreza, capaz de dividir todos os bens que produz. É preciso articular um amplo movimento de luta e resistência em torno da defesa de um projeto democrático de sociedade, no qual todos tenham plena cidadania. Ainda que persista um forte discurso a defender o mercado, suas regras e seus valores, nada pode estar e pairar acima dos interesses civilizatórios e do bem estar das pessoas. O mercado não tem mesmo coração, mas é preciso bradar que nós o temos.

Adelino Francisco de Oliveira é filósofo, professor do Instituto Federal de São Paulo campus Piracicaba e pré-candidato à prefeitura de Piracicaba pelo Partido dos Trabalhadores.

2 Comments on "Ao Mercado Tudo, ao Povo a Morte."

  1. Adelino, como você escreve bem e tem um raciocínio lógico e maduro. Gostaria que você falasse sobre a perplexidade/indignação que a gente sente ao ver que aquilo que aprendemos como moral e ética tem que ser revisto uma vez que esse presidente e sua equipe quebram, de todas as formas, esses paradigmas. Onde foi que esses últimos governo erraram na educação, pois a fé, que é abstrata, sobrepõe à ciência e em nome de deus pode até matar que ele perdoa. Abraços

  2. Maria de Fátima dos Santos | 27 de maio de 2020 at 19:00 | Responder

    Parabéns professor,Precisamos de mais pessoas para defender o Brasil …pessoas que queiram se mobilizar para juntos abraçarmos essa Luta….

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