Adolescentes do Formar: suas vontades, sem preconceitos

Adolescentes do Formar: suas vontades, sem preconceitos

Na maioria das vezes, falamos daquilo que não conhecemos. Ouvimos dizer, lemos alguma coisa e nos achamos competentes para opinar sobre isso ou aquilo. Em Piracicaba, há 60 anos, uma instituição atende jovens que primeiro eram chamados de “carentes”, depois “vulneráveis” e agora, com a legislação mais recente, “desprotegidos socialmente”. Foi primeiro Guarda Mirim e, desde 2012, transformou-se no Instituto Formar. Já neste segundo período, atendeu cerca de 9 mil jovens – já dentro de uma visão de mundo diferente da época de sua fundação, num país que agora proíbe formalmente o trabalho infantil e criou a figura do aprendiz (hoje já são cerca de 750 mil em todo Brasil), dando aos adolescentes oportunidade melhores e mais qualificadas de inserção no universo do trabalho. Mas o quanto se sabe sobre quem são eles? O que pensam, com o que sonham, o que os agride, os machuca e os angustia?

Lançado no último final de semana, o livro Formar pessoas é o que muda o mundo – mote adotado pelo Formar há algum tempo e especialmente nas comemorações dos 60 anos – traz uma pesquisa das mais amplas, que deveria ser olhada com seriedade de um referencial de um tempo, de um estrato da população, de um grupo que precisa de acolhimento, acompanhamento, incentivo e especialmente oportunidades melhores. Dos 431 aprendizes do Formar, ativos quando a pesquisa foi realizada, no ano passado, 83% deles a responderam. O retrato que se desenha se constitui, portanto, em conteúdo dos mais sérios para se entender esses jovens entre 16 e 21 anos, dos quais 61% são mulheres.

Felizes? Nem tanto, já que 74% dizem ter medo do futuro. No entanto, ainda assim, 59% têm esperança em dias melhores, enquanto 39% sentem raiva diante da situação atual. Trazem consigo, como grande expectativa, um emprego estável – e 79% querem fazer uma faculdade. Na sua história pessoal, 61% carregam as marcas de ter trabalhado antes de chegarem aos 18. E a admitem medos cotidianos: 69% sente medo das ruas; 50% quando navegam online; 32%, na escola e 14%, em casa.

E como ter uma adolescência e ser jovem com tantos preconceitos em torno de si? 69% deles aponta conhecer o que seja preconceito racial; 54%, preconceito de gênero; 48%, preconceito por ser pobre e 46% preconceito por morar na periferia. O retrato claro de uma sociedade excludente, que distingue uns e outros por aquilo que ela mesma lhes nega. Um quadro difícil de enfrentar e superar para muitos deles: 43% não têm dinheiro para o transporte diário ou para material escolar; 38% viram a noite estudando, o que se torna ainda mais difícil porque 23%, mesmo trabalhando e estudando, ainda precisam cuidar de irmãos mais novos.

Não são diferentes da imensa maioria desta faixa etária do país, que vão compondo novas gerações onde vale mais o virtual, o que se reproduz pelas redes sociais, do que o que se aprende (ainda) na escola. 276 têm como primeira opção de informação a internet, e 92 como segunda e terceira opções. A escola aparece como primeira opção para apenas 14 e para 251 como segunda e terceira opções. Sobre o que querem estudar e aprender mais, novamente o sinal de novos referenciais do tempo em que vivem: 68,1% querem aprender sobre empreendedorismo e finanças pessoais, seguidos por 60,8% que também se interessam por desenvolvimento pessoal, enquanto marketing digital e redes sociais parecem atrativos para 54,6%. As opções edições de vídeos e fotos e programação para sites e apps aparecem como de interesse para 43,7% e 47,3%.

Mas, curiosamente, o imenso percentual dos entrevistados, ou 61%, confia e busca sua família, reproduzindo o sonho tradicional de estar casado, com filhos e morando numa casa própria. Dar força financeira para a família, aliás, é objetivo de 237 deles. Eles são uma pequena amostra de um quadro mais amplo de Piracicaba e região. Segundo boletim do Observatório da Região Metropolitana de Piracicaba, ali existiam, registrados no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (exigência para ser selecionado como aprendiz no Formar), até agosto de 2022 (dado mais recente), cerca de 200 mil pessoas em situação de pobreza ou extrema pobrezas. Dessas, 81.322 tinham menos que 15 anos.

Tais dados deveriam fazer políticos e empresários locais repensarem a falsa ideia da cidade ótima e com índices a se orgulhar. Pelo menos para esse grupo, apenas uma ilusão que não se sustenta: 51% dos entrevistados querem mudar de país como sonho generalizado, mas é mais do isso – 28% querem mesmo é mudar e sair de Piracicaba.

Não é pequeno o desafio do Formar. Desafio que deveria ser também da sociedade piracicabana.

 


Beatriz Vicentini é jornalista.

 

 

 

 

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