A Virgem Aparecida – poema de Tito Kehl (pelos 309 anos do encontro da imagem)

A Virgem Aparecida – poema de Tito Kehl (pelos 309 anos do encontro da imagem)

Pra reafirmar o compromisso de Maria com os pobres,

para anunciar essa Virgem brasileira,

para firmar essa raça que insiste em estar viva.

 

A Virgem aparecida

Pelo 309 anos do encontro da imagem.

(Itaguassú, Guaratinguetá, 12 de Outubro de 1717).

 

Quando Felipe Pedroso, João Alves e Domingos Garcia
colaram ao corpo a pequenina cabeça da imagem, e
lançaram ao rio, mais uma vez, a rede que tantas vezes
voltara vazia, surpreenderam-se de que ela vinha cheia
de peixes, em tamanha abundância, que mal conseguiam
puxá-la para o barco, e regressaram à vila de Itaguassú,

distrito de Guaratinguetá, certos de haver presenciado
um milagre, ou algo parecido, e então, após lavarem
a estatueta de terracota enegrecida, reconheceram,
no rosto e nos trajes, aquela que só poderia ser a Mãe
de Jesus, Nossa Senhora, ali aparecida, que emergira
das águas barrentas, uma jovem em trajes antigos,

de lábios grossos e nariz redondo, negra, parda, ou
indígena, cafuza, mameluca, ribeirinha, mestiça de
qualquer forma, com os olhos baixos e humildes, mas
irradiando uma compaixão e um amor nunca visto
naquelas terras, ela, a pequena Virgem de barro,

mais simples do que todas as imagens de todas as
igrejas conhecidas, com suas mãos postas numa prece
que quase se podia ouvir murmurar, tão doce era
o sorriso que se adivinhava em seu rosto, e ali
repousava a alma de toda a gente sofrida dessa terra,

dos pobres e dos desvalidos, como se toda a Palestina
tivesse sido transplantada para aqueles sítios, para
ser encontrada por três pescadores, como os amigos
de seu Filho, rudes e analfabetos, mas cheios de uma
fé que não conhecia limites, ela, a virgem que entregou
sua carne para que Deus se fizesse menino e habitasse

entre nós, não nos salões atapetados dos palácios
dos ricos, mas nas casinhas de sapé e pau-a-pique
na beirada de cada rio sem nome que corre para o
oceano, sem pedir nada, apenas irrigando com sua
alma de água a criação toda, para que essa possa
seguir, como nos braços de uma mãe, seu destino.

 


Padre Tito Kehl – da Ordem Ortodoxa Hospitalar. 

 

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