A responsabilidade indelével dos jornalões

A responsabilidade indelével dos jornalões

A reação da maioria dos grandes grupos de mídia à decisão do Ministro Edson Fachin, de anular as condenações do ex-presidente Lula, por considerar que a 13ª. Vara Federal de Curitiba não tinha competência jurisdicional para isso, foi a de atacar e desqualificar a decisão do ministro e a pessoa do ex-presidente – insistindo na sua culpabilidade e propalando o que pensam os setores mais obscurantistas da sociedade brasileira.

Não se esperava outra coisa dos jornalões e similares. Afinal de contas, eles tratam de se defender – pois foram cúmplices nessas condenações, interagindo com a quadrilha de Curitiba e dando-lhe respaldo midiático, e de modo espetaculoso. Lula foi execrado diariamente, durante anos a fio, no rádio, nos jornais e na TV e teve sua imagem seriamente afetada, sem o direito de se defender nesses espaços. No corajoso e histórico voto do Ministro Gilmar Mendes, proferido na última terça-feira, em sessão da Segunda Turma do STF que tratou do pedido de suspeição do ex-juiz Sérgio Moro, ele não poupou a chamada grande mídia, chamando a atenção sobre o seu papel insidioso nessa trama diabólica.

O protagonismo torpe da grande mídia brasileira e o seu enlace com as elites dominantes brasileiras vem de longe e não custa lembrar, apenas para nos restringirmos a dois fatos históricos, que articulou e apoiou os golpes contra João Goulart em 1964 e contra Dilma Roussef, em 2016.

Os jornalões e similares sabiam quem era Jair Bolsonaro e do que ele seria capaz, pois ele jamais dissimulou, jamais escondeu seus torpes propósitos. Mesmo sabendo dos enormes riscos, não titubearam em apoiá-lo nas eleições de 2018, em nome dos interesses mesquinhos das elites dominantes das quais fazem parte. São, portanto, corresponsáveis pela catástrofe que tomou conta do país, inclusive, e sobretudo, pelo desastre sanitário e pelas milhares de mortes evitáveis decorrentes. Se há genocídio em curso no país, a grande mídia tem sua cota de responsabilidade.

A decisão do Ministro Fachin foi tardia, embora correta e necessária, e devemos celebrá-la como um triunfo da Democracia. Ela vinha sendo reclamada pelos advogados do ex-presidente e por aclamados juristas brasileiros desde o início da escalada persecutória, sem sucesso. Afinal de contas, a Lava Jato diz respeito às investigações sobre desvios na Petrobrás e o próprio Moro já havia admitido que não encontrara evidências das ligações do ex-presidente com esse assunto. A Vara de Curitiba, sob Moro, havia, no entanto, se tornado o locus da Justiça Universal, incensada irresponsavelmente pela grande mídia, e tudo era admissível, até mesmo a esculhambação do Estado de Direito.

É importante, contudo, registrar que a decisão do Ministro Fachin só se tornou possível graças à derrocada do prestígio da malfadada Operação Lava-Jato, quando se descobriu, nas mensagens trocadas entre os seus personagens pelo celular, captadas por hackers, que houve um conluio criminoso entre o ex-juiz Sérgio Moro e a bancada acusadora, representada por procuradores da república, para condenar Lula a todo custo e inviabilizar sua volta ao poder.

Na iminência do julgamento da suspeição de Moro, na esfera da Segunda Turma do STF, o Ministro Fachin, notório defensor da Lava Jato e de Moro, mesmo conhecedor dos crimes ali cometidos, numa canetada surpreendente, anulou as ações condenatórias contra Lula e remeteu-as novamente para a primeira instância, desta feita para a jurisdição de Brasília. Tudo indica que a tática foi a de evitar a suspeição de Moro e, quem sabe, de si próprio.

Tivemos um cavalo de pau na conjuntura. Num piscar de olhos, reacendeu-se no país a chama da esperança, as redes sociais entraram em transe de euforia. Lula, finalmente, se viu livre das amarras de condenações injustas e poderá, após devidamente imunizado pela vacina, como já anunciou, percorrer o país, ressemeando os sonhos de um país que anseia por um futuro melhor.

Na sua primeira entrevista após a decisão de Fachin, concedida na última quarta-feira, Lula se apresentou como um homem sem mágoas, disposto a olhar para a frente. Não quer se vingar de ninguém, nem mesmo dos seus algozes, que o mantiveram injustamente preso por 580 dias. Falou como estadista, repeliu o debate eleitoral visando 2022 e conclamou à unidade nacional, para vencer a crise sanitária, a crise econômico-social e as ameaças à democracia. Anunciou que vai dialogar com todos os setores sociais, na busca dessa unidade.

E assim caminhamos. A História permanentemente deixa reservado aos líderes verdadeiros um lugar de honra e aos déspotas e pusilânimes, a lixeira.


José machado (PT) foi deputado estadual, deputado federal por dois mandatos e prefeito de Piracicaba por duas gestões.

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