A morte de Oscar e o país sem (novos) ídolos

A morte de Oscar e o país sem (novos) ídolos

Contrariando a canção de Belchior, imortalizada por Elis, nossos ídolos já não são mais os mesmos – e as aparências enganam cada vez mais. Pior: a morte de Oscar Schmidt, no dia de ontem, nos lembra que já não temos mais ídolos como antigamente.

Para quem pode viver, por exemplo, as décadas em que se desenvolveu o processo de redemocratização do Brasil – especificamente as décadas de oitenta e noventa – a profusão de ídolos das mais diversas áreas do saber, da cultura e em especial dos esportes era tão intensa que a expectativa de que seríamos uma nação de grandes nomes no futuro não deixava de ser um esperança constante e fácil de se sentir (isso sem citar os ídolos da geração de 70 e anteriores).

Oscar, Hortência, Paula, Ayrton Senna e tantos outros e outras atletas nos faziam parar as nossas atividades diárias para vivermos momentos de rara emoção e paixão nacional diante da televisão. Oscar, nesse sentido, marcou toda uma geração com sua genialidade no basquete e sua emoção dentro de quadra (que tantas vezes nos levava a fazer coro ao choro do atleta ao final de suas mais importantes partidas e vitórias). Toda criança e adolescente que jogava basquete nessa época queria ser Oscar (Hortência e Paula) – e quem não jogava se interessava pelo esporte por conta deles e delas. O que dizer de Piracicaba, então, nesse momento? O que dizer do timaço de basquete feminino da Unimep? Geração de gênios. Geração de ídolos.

Como não se emocionar ao lembrarmos que o Brasil parou para assistir ao enterro de Ayrton Senna. Em Pira, vale dizer, talvez só os jogos da copa do mundo foram capazes de deixar as nossas ruas tão desertas como na tarde em que Senna foi velado e enterrado. Não seria exagerado afirmar que havia “no antes” uma relação intensa entre o “ser brasileiro” e a paixão que se sentia pelos ídolos do esporte. Por isso, as cestas que Oscar fazia eram mais do que cestas: eram pontos de paixão pelo país, eram bolas de três pontos de amor e de esperança pela pátria que queríamos e achávamos que seríamos.

Assim, vale retomar, a morte de Oscar – nessa sexta – nos lembra que se seguimos perdendo os nossos ídolos e que, na mesma triste toada, não tivemos mais novos ídolos surgindo. Não é?  Afinal, quem seriam – nos esportes – os ídolos que, como os nossos e os de nossos pais, são capazes – hoje – de fazer parar a respiração do país na expectativa de um cesta de três pontos?

Viramos a pátria do ídolos forjados. Neymar, por assim dizer, é um desses ídolos forjados – que a mídia insiste em requentar para ver se consegue criar ou recriar um figura sobre a qual ainda seria possível se vender publicidade. Mas ídolos como Oscar, nevermore. Nunca mais.

A partida de Oscar – sua partida final – carrega por isso a tristeza de uma final de campeonato em que saímos derrotados. Somos uma pátria sem heróis? Somos um país sem ídolos esportivos – sem grandes ídolos artísticos, sem grandes gênios culturais capazes de fazer parar (e unificar) o país? Perdemos a nossa capacidade de nos iludir, de nos apaixonar? Ou perdemos a capacidade de fazer novos ídolos surgirem?

Triste saber que há quem espera que Neymar seja convocado para a Copa. De cara, já saímos perdendo a partida que mal começamos a jogar.

Valeu, Oscar.
Seguimos com sua glória a alimentar nossa memória e, ainda, alguma esperança por novos tempos.

 

 

 

(Imagem de capa: Oscar Schmidt em ação pelo Banco Bandeirantes em partida contra o Palmeiras, em Barueri. Marie Hippenmeyer. Public domain)

 


Diário do Engenho.

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