A Crise dos Acervos em Piracicaba

A Crise dos Acervos em Piracicaba

Há pouco tempo, uma nova crise vem discretamente emergindo no seio da já tão desestruturada cena cultural (e histórica) da cidade. Com o anúncio da venda da “Fazendinha” da Unimep na última semana e a concretização de que o império metodista no município e fora dele ruiu de uma vez por todas, a preocupação em relação à destinação que será dada aos acervos que a instituição acolhe (e que são vários e de expressivo tamanho e importância) ganhou destaque no boca a boca das gentes e mesmo em matérias jornalística da imprensa piracicabana – batendo recordes na bolsa de aposta das especulações locais.

Para onde irá todo acervo que está no Centro Cultural Martha Watts é uma pergunta que nós aqui do DE já fizemos publicamente em outro editorial. Na mesma trilha, o que será feito do acervo de partituras, instrumentos e outros – por exemplo – que são propriedade da Escola de Música (EMPEM) é questão que também se tornou recorrente neste espaço. Conjuntamente aos acervos do Martha Watts e do campus Centro, emerge agora também a preocupação com o acervo documental e tridimensional do campus da cidade de Lins, também propriedade da Unimep (onde se encontram, por exemplo, antigas cadeiras de dentista e outros equipamentos ímpares que contam a história da odontologia).

A crise dos acervos não se restringe apenas às ruínas da Unimep, todavia. Instituições como o ICEN (Instituto Cecílio Elias Neto) – que reúne um acervo fenomenal e que contempla coleções de fotografias, livros e demais materiais – também revela agora preocupação com a sua continuidade. E há outros acervos, menos conhecidos ou mesmo ainda não institucionalizados, a eclodirem neste momento solicitando abrigo adequado. Para se ter uma ideia, no último dia 16 de maio, uma atividade promovida pela Escola do Legislativo da Câmara Municipal reuniu um surpreendente número de pessoas interessadas no tema – e não faltaram nessa atividade falas sobre acervos particulares que estão, de alguma maneira, ansiando por uma possibilidade de acolhida por alguma instituição (quem quiser saber mais sobre esse encontro, pode acessar a matéria: http://camarapiracicaba.sp.gov.br/roda-de-conversa-discute-importancia-de-centro-de-memoria-da-cidade-65068 ).

Disso tudo, a grande questão que se destaca em meio a tantas outras é: Piracicaba não possui um centro de documentação municipal. De igual “falta de sorte”, nossas instituições culturais e demais símbolos de nossa história caminham sempre à beira do abismo – e correm o risco ad eternum de terem seus prédios demolidos e transformados em lucrativos (para poucos) conjuntos habitacionais. Em meio ao que é público e ao que é privado, se deterioram acervos que registram a nossa identidade, a nossa história, a nossa cultura.

Por fim, cabe ainda destacar – ao que pese a singeleza rara e que precisa ser preservada e conservada como um bem inigualável que é o nosso Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes – que é fato que Piracicaba também não possui um “museu” que possa contemplar as necessidades de uma cidade que é sede de uma região metropolitana. Em um município com quase 500 mil cidadãos e cidadãs, numa região metropolitana de mais de 1 milhão e 2o0 mil habitantes, urge – para o bem de nossa história e cultura – a fundação de um espaço municipal capaz de reunir os acervos que se encaminham muito em breve para o fim mais triste e cruel que a eles se pode destinar: a lata de lixo.

Em tempos de desmonte cultural e da sanha sempre feroz do capitalismo, como mostrar aos nossos gestores, empresários e demais munícipes que essa e uma necessidade premente? Fica aí a pergunta.

 


Dos editores.

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