Ler quinhentas páginas é, indubitavelmente, um extenso exercício de solidão. Assim como escrever é uma intensa prática de isolamento do mundo. Trata-se de algo bom ou ruim? Depende. Depende de quem pratica a leitura e a escrita, assim como depende da visão de mundo e dos valores de quem é chamado a responder a esta pergunta.
Recebi de presente de uma velha amiga, Neusa Medrado, História da solidão e dos solitários, de Georges Minois (o que me fez lembrar História do celibato e dos celibatários, de Jean-Claude Bologne), iniciando imediatamente a leitura, motivado pela lembrança do conteúdo delicioso de outro livro do autor, lido em 2019 (História do riso e do escárnio). Foi começar e não conseguir parar. A escrita é fluente, o tema é convidativo, a abordagem é agradavelmente inteligente, embora peque por desconsiderar por completo o fenômeno além do Ocidente: não resta dúvida de que, na China e na Índia, por exemplo, a questão da solidão apresenta aspectos que a Europa e a América, se não desconsideram, não são capazes de compreender tal como chineses e indianos. Por isso, talvez esta obra de Minois devesse trazer como título História ocidental da solidão e dos solitários.
Na introdução, Minois confessa-se apreciador da solidão (uma vez bem entendida) e, em outros momentos do livro, diante do fato de que, em 2011, o governo francês decidiu agir contra o “mal da solidão”, questiona se esta foi uma política pública adequada, inclusive perguntando se o conceito de solidão em que se baseou não se confunde com isolamento, perguntando, também, se este não deve ser diferenciado do que é o sentimento de solidão; afinal, alguém pode viver isolado, mas não se sentir só.
História da solidão e dos solitários é um extenso e minucioso panorama histórico da solidão, desde os gregos antigos até o momento atual (era das tecnologias da informação e da comunicação), no Ocidente, dando conta de que, assim como na pólis e na Idade Média cristã, na modernidade e na pós-modernidade o fechamento do indivíduo em si, como espécie de fuga da sociedade e da multidão, por variados motivos (socialmente aceitos ou rejeitados), é, ao mesmo tempo, amedrontador e admirável, objeto de censura e de elogio. Um inventário de casos e situações, incluindo grandes nomes da filosofia, da ciência e da arte, permite concluir que não é possível formar uma ideia plenamente consensual acerca da desejabilidade ou da indesejabilidade da solidão, posto que ela é multifacetada e, além disso, percebida por cada indivíduo de acordo com suas circunstâncias e formas de perceber e sentir a relação com os outros e com o mundo.
Especialmente esclarecedoras são as reflexões de Minois quando, como historiador atento ao microcosmo, sem perder de vista a grande narrativa histórica, toma como objetos a solidão do cidadão banido na Grécia antiga, a solidão do monge em busca de comunhão com Deus, a solidão do intelectual e do artista no encalço de sua singularidade, a solidão daqueles que são por ela vitimados por situações da vida fora de controle (velhice, abandono, aprisionamento etc.). Percebe-se, por esta via, o quanto a solidão é uma situação e também um conceito complexos e, ao mesmo tempo, fundamentais para a existência humana, sempre às voltas com o confronto indivíduo versus sociedade, liberdade versus opressão, egoísmo versus altruísmo.
O inventário de exemplos de indivíduos, tanto comuns como notáveis, envolvidos por situações, impostas ou voluntárias, de solidão, ao longo da História, apresentado por Minois, é espetacular, dentre eles, o caso mais inacreditável sendo o de Henri-Frédéric Amiel (1821-1881), professor em Genebra, que dedicou praticamente toda a sua vida a escrever um diário da própria solidão, chegando a 17.000 páginas.
Diante da realidade atual, na qual o indivíduo se vê diante de uma avalanche de contatos e relações de que não pode fugir, assim como enfrenta dificuldades para saber bem escolher entre relacionar-se ou isolar-se, refletir sobre a solidão numa perspectiva histórico-crítica é uma oportunidade valiosa, ainda mais sob a condução de um autor com a capacidade de se comunicar tão bem com o leitor comum sem perder em profundidade.
(Referência: MINOIS, G. História da solidão e dos solitários. Trad. de Maria das Graças de Souza. São Paulo: Ed. Unesp, 2019, 503 p.)
