Coringa e o colapso neoliberal.

(Contém spoilers!)

A versão brasileira da revista Jacobin traz artigo muito interessante, “Coringa e o pânico moral”, em que expõe críticas em torno do filme de Todd Philips. A horda conservadora achou um novo bode expiatório para justificar a violência que denuncia, voluntária ou involuntariamente, o abismo social criado pelo neoliberalismo e as políticas nele contidas, as quais, como bem sabemos no Brasil, se traduz em cortes de investimentos sociais (leia-se: PEC do teto dos gastos!) e benefícios ao cidadão (reformas trabalhista e previdenciária).

Na tentativa de amenizar a escarrada anti-liberal que, claramente, o filme deixa explícita, o conservadorismo se agarra à modorrenta defesa de que o personagem-título pode ser “gatilho” de atrocidades. Nada diferente, por exemplo, do que ocorreu em 1999, época do lançamento de Matrix, em que a “culpa” pelo atentado em Columbine seria da saga vivida por Neo. Na cabeça liberal, incapaz de observar a materialidade histórica, o problema está sempre no iceberg e nunca na estrutura e/ou condução do Titanic.

Arthur Fleck é um desajustado. Perambula em um sub-emprego numa agência de palhaços para eventos de promoções em lojas e shows em hospitais infantis, vive num sufocante apartamento com sua mãe doente e ainda tem que conviver com uma característica que o torna estranho e rejeitado: ri involuntariamente, sobretudo quando está nervoso. Tem, claramente, um distúrbio mental, mal compreendido por ele e ainda mais por quem o vê nas ruas. A assistência que recebe, ainda que precária, é cortada pelo governo.

Cena após cena, há uma bomba-relógio ativada e em contagem regressiva. A violência urbana — agredido por garotos e, mais tarde, por riquinhos mimados — , o bullying midiático — com a exibição, em programa de TV, de um vídeo em que aparece em um frustrado show de stand-upcomedy — e as revelações pessoais — Arthur foi adotado e descobre que a mãe sofre de problemas mentais—, tudo se catalisa na mente solitária e sem perspectiva.

A realidade macro é, ainda mais, opressiva. Em uma cidade com greve dos catadores de lixo, a sujeira se acumula, surgem os “super ratos” e, na TV, o bilionário e pré-candidato a prefeito Thomas Wayne diz que o autor de assassinato triplo no metrô — identificado como ‘palhaço mascarado’ — demonstra inveja dos desafortunados contra os bem-sucedidos. A fala desastrosa dá vazão a um movimento político, com manifestação contra os ricos — algo parecido com Ocuppy Wall St., dos 99% contra o 1%.

No meio de tudo isso, Arthur tem uma epifania. Sente que, a partir da violência, passa a “existir”. Embora não veja nesta conjuntura uma postura política — diz isso claramente — , torna-se símbolo de uma manifestação que propaga destruição por Gotham City. Neste ponto, vale remeter ao Batman — Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, de 2008, em que o coringa de Heath Leadger diz, com todas as letras, “eu sou o agente do caos”.

Coringa (2019) é claramente uma crítica ao estado de coisas criado em torno de uma sociedade ultra-capitalista, ultra-individualista e ultra-sensacionalista. A tentativa de analistas conservadores e grupos de extrema-direita acusarem o filme como gatilho à violência não passa de cortina de fumaça para tentar diminuir a denúncia nua e crua que se desenlaça na tela.

Não se trata de dizer que a violência é justificada. Justamente ao contrário, é tratar o caos social como resultado de escolhas sociais que se mostram não apenas ineficazes, mas vetor da tragédia social que se pretende combater. Coringa (2019) é um recado claro, direto e sensível: terroristas não se criam porque existe uma guerra entre o “bem” e o “mal”, mas porque vivemos um caldeirão em que há uma receita de ódio capaz de torna-los viáveis.

Arthur Fleck é, sim, uma vítima de um sistema que ignora os pobres e pessoas com deficiência. Coringa surge como a resposta — condenável, é evidente — ao garoto que só encontra no afago vaidoso do sensacionalismo midiático a sua verdadeira razão de ser. Não há o que tergiversar: a violência ali demonstrada é o resultado do colapso neoliberal.

A culpa não é do iceberg.

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Erich Vallim Vicente é jornalista.

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