A quem interessa o caos no país?

Análises mil intentam compreender a força motriz do caos que colocou o país em estado de alerta e de urgência nos últimos dias. Linhas das mais variadas ordens descortinam a todo momento teorias das mais complexas às mais conspiratórias, que se somam e se avoluma nas redes sociais, nas blogs e no boca a boca diário. Mas, de fato, o que sabemos e o entendemos desse momento político-social que coloca definitivamente o país na lona?

Certamente, qualquer reflexão mais definitiva neste momento será certamente apressada e por demais hipotética. Isso porque, ao que se pode perceber com segurança, muitos são os atores e os fatores que tomam parte do cenário de insegurança nacional ao qual sucumbe o desgoverno de Michel Temer. Assim, apoiar ou não esse ou aquele movimento pode ser, neste momento exato, um risco – fatal.

Nesse sentido, e antes de estabelecermos essa ou aquela opinião em definitivo, importa observarmos mais de perto os elementos que estruturam as cortinas do grande circo Brasil que luta para se manter em pé.

Isto posto, talvez valha aqui recuperarmos um pouco do que sabemos sobre Temer, sobre a greve e sobre seus desdobramentos.

Sobre Temer

  1. Temer nunca teve, de fato, o controle do país nas mãos. Sua ascensão ao Planalto é vexatória, calcada numa traição ao PT e à presidente Dilma (traição essa que já entrou para a história do Brasil).
  2. A tomada do poder por Temer e seus paladinos do MDB, PSDB e outros foi negociada palmo a palmo com o congresso, senado e judiciário – que “legalizaram” um impeachment fraudulento e deram ares de normalidade e justiça a um modelo de golpe que se configura como jurídico-parlamentar. Ou seja, há uma dívida sendo e a ser paga com esses respectivos atores.
  3. Temer foi gravado em flagrante delito na calada da noite, recebendo nos porões do Palácio do Planalto um dos chefões da máfia da propina que controla as rédias da política nacional. No entanto, em mais uma hábil porém custosa manobra, Temer se manter no poder – contando novamente com o apoio do congresso e do judiciário. Essa conta também está e continuará sendo paga pelo “presidente”.
  4. O Planalto e seu presidente não tem mais, portanto, qualquer força política para se manterem em pé – uma vez que Temer ocupa-se mais em salvar seu pescoço do que em governar. Além disso, ao que parece, todas as fichas para obter o apoio do congresso e judiciário já foram jogadas. Resta a Temer, provavelmente, pouca gordura para se queimar.
  5. Em termos estruturais, ao que pese a propaganda enganosa que Temer faz de si mesmo, o país vai de mal a pior – com aumento histórico do desemprego, alta estratosférica do dólar, desmonte da farmácia popular, desmonte do ensino médio, ataque aos direitos dos trabalhadores e constante aumento dos derivados do petróleo – e, ainda, da energia elétrica.

Sobre a greve

  1. A greve tem seu início motivada pela alta constante do diesel – e consequente encarecimento e baixo lucro na prática do frete.
  2. Muito para além de uma greve de caminhoneiros, o movimento que se espalha pelo país estrutura-se com o “apoio” de empresas e empresários do ramo.
  3. Boa parte dos caminhoneiros que estão parados são, explicitamente, eleitores e apoiadores da “extrema-direita” do país – sendo que muitos estampam em seus caminhões parados nas rodovias faixas em apoio a Bolsonaro e pedidos de intervenção militar.
  4. A esquerda e os movimentos sindicais pouco ou nada participam desse movimento grevista.
  5. De maneira geral, grupos de diferentes ideologias e colorações políticas tentam agora se aproximar e se valer do movimento grevista que parou o país.

Dadas as premissas, surgem assim as questões para as quais ainda não temos respostas.

a. Diante de um presidente “fake” e absolutamente enfraquecido, a quem interessa parar o país? A esquerda? A direita? Aos extremistas apoiadores de Bolsonaro? Quem lucra com mais essa desidratação de Temer?

b. O aumento constante nos valores dos combustíveis justificaria uma ação tão drástica de paralisação de todo o país – como se viu?

c. Mais uma vez, a crise que põe o país de joelhos tem como ponto de origem os derivados de petróleo. Será apenas uma coincidência? Temos novamente a Petrobrás na berlinda?

d. Tal como em 2013, quando as ruas do país foram tomadas pela população, ao que parece não temos também nenhum partido ou grupo político liderando explicitamente o movimento. No entanto, a queda de Dilma – vale lembrar – de alguma forma acontece na esteira desse movimento popular, que passou a ser liderado posteriormente por grupos como o Vem Pra Rua e outros. Não seria de se esperar que, assim, em breve, a greve dos caminhoneiros também possa ser apropriada por grupos que nada têm a ver com a questão?

Por fim!

Por mais que a greve dos caminhoneiros surpreenda pela sua força e pela sua oposição ao governo de Temer, apoiá-la irrestritamente pode ser um risco –  uma vez que desconhecemos os reais motivos por trás desse movimento. Da mesma forma, corremos o risco também de fomentarmos forças subterrâneas que facilmente podem se apropriar da força desse movimento para abastecerem – com o perdão do trocadilho – suas próprias pautas e interesses partidários.

Por fim, a desidratação total de Temer às vésperas das eleições pode também abrir brechas para – no caso de vacância do presidente (por meio de uma renúncia, por exemplo) – imediatamente colocar o país em eleições indiretas, como preveem as regras aprovadas pela CCJ do senado justamente na última quinta-feira (em meio ao auge das manifestações dos caminhoneiros).

Apoiar ou não apoiar o movimento demanda, sem sombra de dúvidas, muita cautela. E cautela e chá de hortelã não fazem mal a ninguém.

Há muita coisa em jogo por trás dessa enorme cortina de fumaça.

 

 

 

 

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