A intervenção militar contra os pobres

A intervenção militar no Rio segue regra desumana de combate à violência, continua acumulando equívocos fatais e fazendo vítimas absolutamente inocentes.

Em ação ocorrida neste semana, no complexo da Maré, por exemplo, a ação policial-militar que supostamente intentava prender traficantes escondidos na região transformou a favela num cenário de filme de guerra.

Vídeos feitos por moradores do complexo mostram helicópteros dando rasantes sobre a comunidade e disparando a esmo pelas ruas da Maré. Por terra, o “caveirão” da polícia – também como relatam os moradores –  igualmente cuspia rajadas mortais contra alvos desconhecidos que se encontravam nos locais da “ação”.

Como revela o site G1, a ONG  Redes da Maré – em reconstituição da ação militar – contabilizou ao menos 59 tiros disparados em meros 280 metros. Nesse mesmo sentido, foram encontradas mais de cem marcas da bala perto de portões das escolas do complexo.

Durante a ação, o menino Marcos Vinícius da Silva (de apenas 14 anos) foi baleado pelas costas  enquanto se encaminhava para a escola. Marcos faleceu na quarta-feira, não sem antes ter tido forças para dizer a mãe que quem atirou nele foi o “caveirão”. “Ele não me viu com a roupa da escola”, disse ainda o menino à mãe.

Segundo a mãe de Marcos (a diarista Bruna Silva), o socorro também demorou a chegar (mais de uma hora), uma vez que a ambulância não foi liberada em tempo pelo que a mãe chamada de “superiores” que comandavam a ação. No velório do filho, Bruna Silva exibiu a camisa de Marcos Vinícius, toda ensanguentada, e a deitou sobre o caixão dele como um bandeira. “Eles entram na comunidade para destruir famílias” – disse ela em voz alta.

O extermínio de pobres. 

As ações desastrosas da polícia e do exército no Rio mantém o padrão de descaso para com a vida dos mais pobres – descaso esse que se repete sempre quando o assunto é o combate à violência no país.

Varrer as ruas de bairros periféricos atirando ao bel prazer, como revelam os vídeos dos moradores da Maré, denotam a visão que as autoridades que deviam zelar pela segurança no Brasil têm de negros e pobres.

Ser pobre ainda é, no Brasil, sinônimo de ser bandido – e o extermínio de pobres e negros revela essa premissa comprovando-a com um rápido levantamento de dados estatísticos.

A campanha “Vidas Negras”, promovida pela Organização das Nações Unidas” em 2017, aponta a calamitosa estatística na qual se vê que 1 jovem negro é morto a cada 23 minutos no Brasil. São 63 mortes por dia, o que totaliza – nesse levantamento de 2017 – 23 mil vítimas letais por ano! (https://nacoesunidas.org/onu-mulheres-chama-de-escandalo-morte-de-23-mil-jovens-negros-por-ano-no-brasil/).

A criminalização da pobreza, certamente, está no cerne do descaso para com as mortes dos menos favorecidos. Ou seja, em meio à luta de classes – que ainda hoje vemos fervilhar na organização social do país – pobres e negros são descartáveis por aqui.

Varrendo as ruas à bala

Varrer as ruas a tiros. O que esperar de uma ação bélica que tem nessa prática o centro de sua atividade? Atirar a esmo, não poupar civis – sejam eles mulheres e crianças? Que tipo de estratégia ou preparo nos revela tal prática?

De efetivo, nada de novo no front. A violência no Rio – e no país – pouco ou nada diminui.

Ante a falta de preparo e de ações reais no combate à violência, por outro lado, a classe média aburguesada parece assistir – do alto de suas sacadas gourmet – impassível a prática do extermínio que atinge ao menos favorecidos nas periferias e nas comunidades do país.

Vingando-se da violência que acomete a todos, o ataque contra os pobres ainda serve de escape contra a falta de política pública real e de estratégias plausíveis para se combater o crime no país – crime esse, é claro, que tem sua origem nos altos cumes da nação e da política que a comanda – e não apenas se aloja na periferia.

Enquanto nada se resolve, vai se tentando exterminar lentamente, mas com constância, os pobres do Brasil.

 


 

 

 

 

 

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