DIA DOS FINADOS – MEMÓRIA E TRANSCENDÊNCIA

A comemoração do dia dos finados está diretamente relacionada a uma percepção religiosa sobre a existência. O gesto ritual de visitação de túmulos nos cemitérios, ornamentando com flores e objetos simbólicos, contempla duas dimensões fundamentais: a memória afetiva, traduzida na saudade do ente que jaz morto, e a compreensão de que a morte se constitui como mera passagem, pois a vida é transcendência. A celebração diante do túmulo, representa, em última instância, a crença de que persiste, apesar da morte, uma via de comunicação entre o mundo dos vivos e a realidade transcendente, na qual se encontra agora o morto.

Quanto mais materialista for a sociedade, menos significado e importância terá o dia dos finados. O apego à materialidade da vida é um empecilho para se vislumbrar a transcendência, a suplantar a própria morte. Por não conceber a vida como realidade transcendente, o materialista torna-se incapaz de compreender os sentidos e ensinamentos da morte. Por isso ele sente desespero diante de velórios, sepultamentos e cemitérios.

Na visão materialista, carente de espiritualidade, a vida pode se esgotar na fruição mais imediata. Preso a uma percepção limitada e redutora de presente, o materialista tende a recusar e desvalorizar as dimensões mais humanizadoras da vida – a sensibilidade, a amizade, o cuidado, a fraternidade, a solidariedade. Na perspectiva materialista, a morte significa tão somente aniquilação.

Visitar o túmulo do ente querido, não deixa de carregar também um sentido de memória, de reaproximação com a própria história ancestral. A lembrança da vida, princípios e lutas dos antepassados, inspira e atribui significado ao presente, apontando para o futuro que se deve construir. Esquecer os mortos é como promover um apagamento da história pessoal e coletiva. Além do vazio enquanto caminhar humano, o esquecimento dos mortos e do passado pode produzir a repetição de equívocos históricos.

Na tradição do Cristianismo Católico alguns mortos passam a ser referências para a conduta dos vivos. É o caso dos santos. Uma vida exemplar não pode ser esquecida. Nem mesmo a morte é capaz de obliterar uma vida santa.

A experiência da morte evidencia a finitude e temporalidade do humano. A realidade da morte ao mesmo tempo em que desvela a relatividade de toda materialidade da vida aponta para realidades existenciais bem mais elevadas. A morte assume então uma representação pedagógica, a ensinar que o fundamental da existência reside no amor, bem maior e fim último de todo caminhar humano.

Longe de ser um culto à morte, o dia dos finados se configura como um convite para se celebrar o dom da vida, de maneira a conceber a existência como uma trajetória para a transcendência. O cotidiano existencial, com suas múltiplas demandas, pode acabar por impedir a construção de uma percepção mais profunda sobre os sentidos da morte. O dia dos finados configura-se, então, como uma possibilidade para se reconectar vida e morte, memória e transcendência.

 


 

 

 

 

 

Adelino Francisco de Oliveira é professor no Instituto Federal campus Piracicaba. 

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