Comunista come criancinha.

Estou numa hamburgueria e, enquanto escrevo, o corretor ortográfico do Word insiste em alertar que essa palavra não existe no português. Não existe no português, mas existe nesta mania de “rias” que pululam no imaginário do marketing da moda. Charcutaria, cabeleria, sanduicheria, temakeria, doceria e, talvez, o pior de todos: esmalteria.

Não ria. As palavras imaginam moda, vendas, paraísos e desejos. Maison de Nobility, Terras de Algaravia, Bosque dos Lenheiros. Roupas em francês, tecnologias em inglês. Nunca li nenhuma placa de condomínio com o nome de Maison da Especulação Imobiliária, Terras de Exclusão Social, Campos de Gentrification.

Ed. Costa do Marfim. Eu vi isso em Campinas. Aí quase pirei. Eu jamais moraria num lugar com esse nome. Apocalipse Now citando Coração nas Trevas. É o HORROR! Processo colonial acabando com a África, consumindo almas de elefantes e escravos. Pianos com teclas de marfim nas casas burguesas do café. Muita chibata no lombo, Sinhô. “Ebony and ivory live together in perfect harmony/Side by side on my piano keyboard, oh Lord, why don’t we?”

Os “rias”, que eu dizia, não são assim tão indiscriminados. Também nunca vi nenhum puteiro – ai é eiro – com o nome “Bucetaria”. Seria ótimo! Direto, preciso, sem esconder ou disfarçar nenhum desejo. O hambúrguer era muito bom, gostei. Boa combinação de temperos, tempo de cozimento, no ponto. Eu estava sozinho, e com olhar para o distante e o estranhamento, eu mesmo estranho naquele ambiente tão familiar. Papai, mamãe, crianças.

Enquanto esperava o hambúrguer e ao comê-lo, crianças corriam pelo restaurante e, excitadas, gritavam. Eu não queria gorar, mas como sou pai faz tempo, imaginei: daqui a pouco vem choro. Algum vai cair, um vai bater, outro vai achar ruim… Felizmente não fiquei para ver o final da festa. Nesta hora, lembrei de uma aula com Paulo César Pinheiro, quando estudávamos Norbert Elias: controle de emoções, de impulsos, repressões sociais, comportamento na modernidade ou o que ele chamaria de comportamento civilizado. E ele dizia de sua experiência nos USA, e que nunca tinha visto, em nenhum restaurante, uma atitude de crianças como as quais descrevi. Na minha estada lá, eu também não vi.

Este negócio de criança dá trabalho. Diria o Palavra Cantada: “criança dá trabalho, não trabalha”. Tinha que manter as crianças na mesa, dar atenção, arrumar papel e lápis para desenhos, conversar, se envolver, se interessar, enquanto esperava pela refeição. E ir embora antes de dar piti. É mais fácil deixar soltas pelo salão enquanto tomamos uma cerveja com os amigos. Se cair, se brigar, se chorar, a gente vai ver. Autocontrole para quem ainda não tem limites formados, incorporados. Parece capitalismo: o mercado se autorregula.

Imagino a impossibilidade disto na América, assim como vejo a cara de irritação e desconforto da minha filha. Ela também se irrita com essa falta de modos; diria minha avó. Na verdade, até ouço minha avó dizer: “Junior, tenha modos de gente!” Que exagero! Não é assim. Volta e meia vem um adulto ver o que está acontecendo, junta as crianças, chama para comer… Também não é bem assim. O adulto é a mãe. O papai está cansado de trabalhar o dia todo, tadinho; condescendente olhar maternal para a criança adulta a ser mimada na desigualdade amorosa do lar. Não fale assim. Ele ‘ajuda’ em casa: troca lâmpadas, desentope a pia. Bundão no sofá em frente da TV, enquanto espera o jantar. Não vai deixar os amigos na mesa, a cerveja esquentar, né?

Utilizar a América como modelo não faz bem para a saúde e nem para a reflexão social, especialmente depois de ler Jessé de Souza, e suas críticas ao deslumbre da intelectualidade brasileira com o modelo racional, técnico e disciplinar que permeiam os estudos desde Gilberto Freire.

De qualquer modo, essas coisas me irritam. Ainda que ontem não ficasse irritado. Acho que estava meio zen. Todavia, isto não me impediu de comentar com a garçonete que me atendia. E ela respondeu: “E o pior é que a gente não pode falar nada”. Não. Nunca falam. Nunca vejo nenhum funcionário repreender ou chamar a atenção de clientes mal-educados, do tipo “a regra não vale para mim”. Nem mesmo quando uma pessoa entra com o carinho de compras lotado na fila do caixa que diz “no máximo 10 itens”.

Já nem sei se era para concordar comigo, ou se ficava realmente incomodada. Não sei, pois ,um pouco antes a vi, com outra garçonete,com olhar maternal, sorrindo, com a expressão “como são Lindas, que graça… gracinha, amor…”; lágrimas nos olhos… Ou o mito do amor materno. Também não é assim, alguém diria. Nem tudo está perdido no reino da Dinamarca.

Na mesa ao meu lado tinha um menino de 2-3 anos, quieto, compenetrado, sentado e comportado frente ao celular. A babá eletrônica só mudou a mídia. No meu tempo era tv, entretanto, ela chegou em casa quando eu tinha mais de 3 anos. Agora são tablets, celulares. Tão entretido que parece nem piscava. Agora me perdi. Não consigo dizer mais nada dele. Só vejo olhos na tela, sem correria, sem choro. Sem tesão, o tesão é outro?

Resumo da ópera: Comunista come criancinha.

 


 

Gessé Marques Jr. é professor de Sociologia na Universidade Metodista de Piracicaba.



advertisement

1 Comment on "Comunista come criancinha."

  1. Parabéns ao Gessé pela inteligência mordaz e fina, pelo ritmo quase alucinante, pela fluência verbo-sonora (Word adverte: esta palavra faz mal ao léxico padrão). Meninos, esse Gessé é um escritor (escandir bem: es-cri-tor). Hábil nas palavras e matreiro no pensamento. Visto o título e conhecido o currículo, esperamos do texto um tipo de coisa que parece demorar, parece nunca chegar, mas enfim já tinha penetrado por seu inverso, pela porta inesperada. Porque é claro que comunismo é coisa das longínquas latitudes do outro lado do planeta, e falar dele requer essas introduções meio que formais. Aí, bagueteria pra lá, ruídos infantis pra cá, colonialismo no meio, controle comportamental encordoado, pronto: quem é mesmo que enguliu as crianças? E como? infância.

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado.


*