Castel Vitorino Brasileiro, artista trans: O trauma é brasileiro

Por Rafael Gonzaga de Macedo

Um dos conceitos fundamentais do pensamento de Homi Bhabba, um indiano que se debruça sobre os estudos culturais extra-ocidentais é o conceito Entre-lugares. Para explicar esse conceito, Bhabba, utiliza a metáfora de uma escada que liga o térreo e o porão de uma casa. De tal modo, estar no entre-lugares é movimentar-se nessa escada de maneira que você está, ao mesmo tempo, nos dois cômodos. É não se limitar em absolutos, fugir das essências paralisantes que criam barricadas para a vivência das coisas.

Caminhar pelas ruas de Vitória/ES com vistas aos entre-lugares pode enriquecer de sobremaneira a experiência do espaço. Trata-se de uma cidade cindida: o VELHO centro padece dos males dos centros das nossas cidades, isto é, o abandono. A matriz histórico-cultural da cidade, aquilo que a liga ao solo e ao suor das gerações que a ajudaram a construí-la, afunda-se no esquecimento e nas camadas de gordura e sujeira que se acumulam no vai e vem das pessoas, que vivem sem margem para reparar ao redor e notar que sua própria história se esvai no pouco caso das autoridades e da sociedade para com sua própria identidade.

Por outro lado, na porção noroeste da cidade, com sua paisagem praia padrão: calçadões, quiosques et caterva recebe o pouco de recursos que sobra à prefeitura. Local este habitado pela classe média e por turistas. Hamburguerias, cervejarias, que produzem cevadas artesanais proliferam junto à cor preta, que toma conta dos muros das propriedades comerciais. Tudo isso pode ser encontrado, monotonamente, em quase qualquer cidade com classe média pouco letrada que grassa pelo Brasil.

Nesse sentido, caminhando pelo velho centro, saboreando suas contradições barrocas e casarios decrépitos, deparei-me com uma pequena galeria de arte chamada Galeria Homero Massena, que abrigava a exposição O Trauma é Brasileiro, de emergente artista capixaba de nome Castiel Vitorino Brasileiro. Castiel expressa de maneira intensa a minha experiência pelas ruas da cidade. Artista trans, ocupa em si mesmo os entre-lugares do ser. Um ser no mundo do futuro. A exposição simula uma espécie de habitação de madeira, típica das periferias brasileiras, experiencia universal do sujeito subalternizado e marginalizado. Mas Castiel faz desse trauma uma trama de cura. Tecendo como Penélope, golpeia como Ulisses os olhos de Polifemo, o gigante ciclope, que tudo devora.

Dentro desse território desenhado pelo artista roçamos em oratórios saturados de conchas, lembranças de um imaginário afro-católico, também ebós (oferendas) e que se mesclam garrafas de cerveja, conchas marinhas, cinzas e isopor, lembranças das reminiscencias africanas que insistem em resistir em meio à poluição e fuligem que descem sobre a terra e formam uma geologia barroca da pobreza e fulgurância cultural.

Tece sua r-existencia na gramatura pesada de fotografias repletas de profundidade e textura, exibindo seu corpo marcado, mas também re-inventado e inscreve eu seu próprio corpo: “o trauma é brasileiro (…) e a cura é bantu”, mostrando que somente tomando as rédeas dos fios de novelo que se desenrola nesses labirintos de vielas, escadarias e casarios assombrados é possível encontrar a cura. Vivendo tradições vividas, imaginadas e re-inventadas é que Castiel parece encontrar sentidos para o que não tem sentido. Traçando linhas e cores no caos, digo, no trauma brasileiro.

 

 

Rafael Gonzaga de Macedo, doutor pela PUC-SP, é historiador, escritor e curador.

 

(Foto de capa tirada pelo autor, em visita à exposição mencionada.)

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