Anotações sobre o Golpe (V).

O GOLPE que levou Michel Temer ao poder foi um conluio do grande capital financeiro, do industrial e do agronegócio. Este poder de fato colocou a seu serviço a grande mídia e as instituições de Estado para que o golpe empolgasse as classes médias e o lumpen, esta escória social como afirma Marx. Manipulados, embarcam no discurso de ódio das classes dominantes sem saber que serão as primeiras vítimas. Então, por que Michel Temer está sendo “chutado” da Casa Grande?

Simples: sua ambição política o fez trair pela segunda vez. Pensando em 2018, ele não cumpriu à risca o pacto golpista. Só entregou meia pizza. Ao mitigar as reformas, sobretudo da Previdência, se colocou em choque com os interesses do grande capital. Vitorioso, o projeto golpista das oligarquias dominantes visava fazer terra arrasada das conquistas sociais.

Partes dos objetivos golpistas foram contemplados no governo Temer. É o caso, por exemplo, dos massacres contra índios e posseiros. Nada de novo na Terra Brasilis. Índios e camponeses não conheceram senão repressão, expropriação, genocídios, degolas e estupros, ao longo de nossa história. Temer e as instituições de Estado fizeram o de sempre: NADA.

Foram os segmentos organizados da sociedade, classe operária e funcionalismo público que obrigaram Temer a ceder algumas migalhas de sua dura política reformista. Vitorioso, o projeto golpista não contemplava concessões, por irrisórias que fossem. Ao longo de nossa história, as classes dominantes sempre foram implacáveis depois de esmagar revoltas populares. Canudos é emblemático neste sentido.

Michel Temer acreditou que seu poder de manipular congressistas com a carteira de Eduardo Cunha pudesse fazer frente ao poder de fato do grande capital. Seu cálculo político revelou-se equivocado. Congressistas, empresários e latifundiários não traem sua origem de classe. Como Eduardo Cunha, Michel Temer é apenas um intermediário entre o Parlamento e os interesses das classes dominantes. O importante para as oligarquias é o domínio das instituições, dos aparelhos de Estado.

A autonomia que as oligarquias concedem aos “representantes do povo” não passa de concessões no tocante às “perfumarias”. No picadeiro do Congresso a bancada evangélica, com os “reaças” de plantão, gastam tempo e verbo para combater a união homoafetiva, defender a família monogâmica e outros penduricalhos morais. As classes dominantes sempre ignoraram estas discussões, pela simples razão de que seu status moral é indiferente ao moralismo religioso. A moral conservadora que defendem é para consumo popular.

O verdadeiro pilar da ordem capitalista está montado no direito inviolável, sagrado, da propriedade privada. As instituições do Estado, as ideologias, sobretudo a religiosa, devem estar a serviço do capital. A prova cabal disso é que em meio ao chute no “traseiro” de Michel Temer, a sua equipe econômica permanece intocável. Henrique Meirelles é cogitado para substituí-lo, se a eleição for indireta. Michel Temer foi “chutado” da Casa Grande porque não fez a lição de casa, que lhe estava reservada no projeto golpista.

Ambicioso politicamente, visando 2018, Temer vacilou para colocar toda Senzala no pelourinho. Pensou que entregando índios e posseiros à morte, para a jagunçada sedenta de sangue, a mando do latifúndio, a fatura estava paga. Equivocou-se. Ao recuar nas reformas, pressionado pelos setores organizados do operariado urbano e do funcionalismo público, desfez o pacto golpista que o alçou ao poder.

As concessões de Temer e sua equipe de investigados pela justiça foram poucas, setoriais. Foi a forma que encontraram para diminuir a pressão das ruas e manter seu projeto político.

Ocupado com suas mesóclises, Michel Temer esqueceu-se de tirar as lições da história como ensina Maquiavel. As classes dominantes não golpearam Dilma Rousseff para ouvir seu português arcaico e muito menos fazer concessões, por ínfimas que sejam, à classe trabalhadora. As oligarquias derrubaram Dilma Rousseff para fazer terra arrasada das conquistas sociais dos últimos anos. É o caráter classista do golpe de agosto que está derrubando Michel Temer.

Obcecado pelo poder, Temer não soube ler as manifestações de rua que emolduraram o golpe. Convocados pela grande mídia, reuniu a elite reacionária, as classes médias rancorosas e a escória social, o lumpe. A direita raivosa, que se escondia desde o fim da ditadura militar que apoiou, sentiu-se à vontade para ir às ruas destilar seu veneno ideológico. Vestiu de verde e amarelo seu ufanismo rancoroso, velhaco; abraçou e tirou selfies com torturadores. Matou a saudade do tempo em que se torturavam opositores nos porões da ditadura.

Michel Temer foi alçado ao poder em meio a este circo de horrores. Sua missão: reprimir a Senzala e garantir ordem e progresso para o capital. Ambicioso politicamente, não fez a lição na medida certa. A crer-se em Maquiavel, Michel Temer é um governante sem virtú, que não soube interpretar a ocasião.

Acabou!


Prof. Dr. José Cardonha. 



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