Quanto vale uma vida?

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Quanto vale uma vida?  Foi o que me perguntei arrancando com o carro quando o sinal se abriu. Pouco antes, quando se fechou, eu e Gloria paramos emparelhados, lado a lado. Um homem mal vestido chegou à janela do carro dela e disse algo. Gloria acenou com a cabeça e percebi que o homem pedia algum trocado. Ele deve ter feito algum gracejo, ela riu, mas balançou a cabeça novamente. O homem veio em direção à minha janela e despejou a tragédia cotidiana brasileira: não sei quantos filhos, a mulher no hospital para ganhar mais um e ele pedindo dinheiro pra dar algo de comer às crianças.

Enquanto eu pegava na carteira algum trocado, um motoboy avançou entre os dois  carros e jogou a moto sobre o cidadão que me pedia a esmola. Quase o atropela. Passa no sinal vermelho, por pouco não se choca com um carro e segue em frente para matar a fome de alguém que devia esperar ansiosa uma pizza, esfirra ou sanduíche.

A um comentário meu da cena estúpida pela qual passamos o homem da janela apenas disse: ia pagar meu enterro e tudo certo.

Pensei em Mariana, no povo mineiro, soterrado pelo rejeito das próprias Minas Gerais. Uma vingança da terra, mas que pegou gente que nada tem a ver com a exploração gananciosa que perfura e destrói o chão do meu estado. Pegou o povo pobre que vive das migalhas do bilionário mercado de mineração. Gente que perdeu a vida, a casa, o sentido e a própria história.

Na noite seguinte, ao sair da aula, pego no rádio notícias pela metade de um atentado em Paris. O retorno pra casa ficou sombrio. Um atentado não, vários. Muita gente morta, centenas de feridos. A racionalidade da guerra acima de qualquer razão. E a sensação, que vai se confirmando, de que as coisas iriam piorar, como no 11 de setembro. Um erro não justifica o outro. Um erro agrava o outro. Vêm aí mais mortes, mais dor, menos humanidade.

E qual o custo de tudo isso? Quanto se paga por tanta barbárie?  Muito pouco. Nem mesmo o enterro dos cadáveres que denunciam nossa desumanidade.

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Wanderley Garcia

 

 

 

 

 

 

 

 

Wanderley Garcia é jornalista e professor na Universidade Metodista de Piracicaba. 



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