Lembro quando Claude Levy-Strauss esteve no Brasil,
lembro que ele visitou as tribos do Xingu,
lembro que ele tomava muitas notas,
com seu lápis alemão, num caderninho
que tinha sempre consigo, e lembro que um dia,
em que o povo estava reunido na praça da aldeia,
e ele anotava tudo o que acontecia,
o pajé foi a ele, tomou seu caderninho e seu lápis Johann Faber,
e mostrando-os a todos os presentes,
fez ali alguns rabiscos, e lembro
que a seguir os devolveu ao belga,
ah, pra quê!, imediatamente o acadêmico lançou tudo
no seu maldito bloco, concluindo
que o velho indígena, sentindo-se diminuído
por seus saberes e qualidades superiores de homem branco,
fingia, perante os seus, também saber escrever,
com seus rabiscos, para que eles o considerassem,
para que pensassem que também ele era capaz
de tomar notas num caderno francês,
com um lápis 6B alemão.
Em sua prepotência, nunca o belga pensaria
que o que fazia o pajé era mostrar, justamente,
a insuficiência de seu saber e sua ciência, que se limitava
a rabiscos num papel, sem
a menor correspondência com o mundo real,
um conhecimento-conhecimento-nenhum,
sem conteúdo, essência ou significado, sem serventia,
destinado apenas a inflar alguma bolsa de estudos
numa instituição europeia qualquer,
para tão somente confirmar os séculos de dominação
da pretensão superioridade branca
sobre todas as raças do universo.
Um cientista que, se largado a sós na floresta,
morreria tão depressa e completamente,
que não lhe restaria vestígio.
Mas, que fazer? Assim somos nós, os prepotentes, que,
montados na pólvora,
tanto trabalho tivemos em destruir
o pensamento outro, as razões não-cartesianas,
os reinos míticos e simbólicos das nações de pele escura
e olhos amendoados, que trabalhão tivemos
em doutriná-los, em fazê-los aceitar o catecismo,
em massacrar seus sonhos,
até que não dormissem mais, até
que entendessem que dois mais dois é quatro,
e que, onde manda o forte, submete-se o fraco,
e hoje, depois de todas as nossas vitórias,
na verdade, de nosso fracasso enquanto representantes de nós mesmos
auto intitulados homo sapiens, nos perguntamos, afinal,
o que teria toda essa gente que apagamos, a nos dizer,
se, por um acaso, lhes perguntássemos?,
que tantas raças, povos, civilizações, ideais haveriam
se não os tivéssemos riscado do mapa?,
e, finalmente, o que significam os discursos,
o lugar de fala dessa gente,
que, quando falam, nós brancos nada entendemos,
como se falassem em códigos alienígenas,
muito mais estranhos do que o supõe
nossa pobre ficção científica, o que querem eles dizer, os Terena,
as Clementinas, os Tenzing, os Nur-al-Din, enfim,
todos os que silenciamos, que são, na verdade, o futuro,
e que agora assolam e fustigam
nossos pesadelos, como se os crimes insepultos
de nossos antepassados, estivessem todos,
a um só tempo, voltando?
Tito Kehl é arquiteto, escritor e presbítero pela Ordem Hospitalar Sanjoanita. Autor de diversos livros, publicou em 2023 – pela editora Terra Redonda – o livro “Poemas ao Deus Desconhecido”.