Piracicabas

Piracicabas

Nenhuma cidade é a cidade que está sendo agora (presente). Toda cidade é, enquanto visível, a cidade em que se mora, se trabalha, se faz negócios, se passeia – a cidade da vida quotidiana, enfim. Mas dela faz parte, invisivelmente, tudo o que ela foi (passado) e tudo que ela sonha ser (futuro) por meio dos desejos e projetos que seus habitantes acalentam e articulam, consciente ou inconscientemente. Evoco Italo Calvino, em Os Deuses da Cidade (1975):

“Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão. Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.”

Daí concluir-se que ver – e compreender – uma cidade não é tarefa das mais simples. Já não é quando a metáfora de que se parte é a máquina; mais complicada ainda se torna quando a metáfora é a evolução biológica. Aí, então, retornando a Calvino, percebe-se que:

“Lento e rápido que seja, todo movimento em curso na sociedade deforma ou readapta – ou degrada irreparavelmente – o tecido urbano, sua topografia, sua sociologia, sua cultura institucional e sua cultura de massa (digamos: sua antropologia). Acreditamos que ainda estamos olhando para a mesma cidade, e temos diante de nós outra cidade, ainda inédita, ainda a ser definida, para a qual valem ´instruções para utilização´ diferentes e contraditórias, e, no entanto, aplicadas, conscientemente ou não, por grupos sociais de centenas e milhares de pessoas.”

Agora fica mais fácil dizer que Piracicaba não existe: existem Piracicabas, umas que eu adoro tanto; outras, nem tanto assim; outras, ainda, que tendo a detestar, além das que não chego a conhecer. Como, para mim, Piracicaba foi, desde minha chegada (1983), até minha partida para Araraquara (2005), basicamente a Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), seu desaparecimento como que me faz entender muito claramente essa história de “mutação biológica” de um espaço urbano.

Tento me fazer entender assim, a partir da criação e da desarticulação do campus Taquaral, à beira da Rodovia do Açúcar. Este campus universitário representou o crescimento e amadurecimento de uma instituição de ensino superior que “fez época”, atraindo anualmente milhares de alunos de todo o país e até estrangeiros para seus cursos de graduação e pós-graduação extremamente bem avaliados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). A imagem de sucesso da Unimep bem pode ser evocada a partir do movimento de veículos na Rodovia do Açúcar, todos os dias, quando se aproximava o horário de início das aulas noturnas (dezenove horas). Era um fluxo enorme, de jovens que trabalhavam durante o dia e vinham para estudar à noite, cheios de esperanças, sobrecarregados pelos esforços diuturnos e pela necessidade de pagar altas mensalidades (ensino de qualidade custa).

A Unimep, então, era uma referência que ampliava a visibilidade de Piracicaba e enriquecia seu quotidiano, com a presença da numerosas repúblicas e alojamentos de professores que, no início, vinham de outras cidades, como Campinas e São Paulo, principalmente. O perfil dos profissionais de Piracicaba, em muitos setores de atividades, por décadas teve sua qualidade definida a partir das salas de aulas, laboratórios e atividades extensionistas do campus Taquaral, com impactos que duram até hoje.

Pois o campus Taquaral deixou de ser local universitário, polo irradiador de educação e cultura, que atrai para si a juventude estudantil, o que faz com que o “organismo” Piracicaba sofra modificação de alto impacto e enormes consequências. Agora ali se instalarão dois (aparentemente modernos) centros de negócios: um, pertencente uma rede de varejo farmacêutico local (Drogal) e outro de propriedade de uma rede de supermercados (Delta). O fluxo de professores, pesquisadores e estudantes será substituído pelo de fármacos e congêneres e pelo de alimentos, bebidas, materiais de limpeza e higiene pessoal etc. que abastecem as gôndolas de supermercados. Uma transformação de grande monta, uma Piracicaba se sobrepondo a outra…

Os que lamentam o triste fim de uma invejável biblioteca universitária, de um complexo desportivo que foi de ponta, de um belo e bem equipado teatro, entre outros bens culturais, choram de fato por uma Piracicaba que não é mais, e provavelmente não voltará a ser (tendo antes sido, por suas escolas de ensino pré-universitário exemplares, a “Atenas Paulista”): uma cidade orgulhosa de sua capacidade de, por si mesma, elevar quotidianamente o padrão educacional e cultural de seus cidadãos, com impacto para além de suas fronteiras. Note-se que as universidades que permanecem são sucursais de Campinas e de São Paulo – públicas (USP e UNICAMP); e as que vieram “em substituição à Unimep” (privadas), são “filiais” de redes focadas em formação profissional de acordo com demandas do mercado e a baixo custo (e também com qualidade nem sempre confiável) – são faculdades, não universidades, o que faz uma diferença muito maior do que o leigo pode supor.

Piracicaba nunca teve tantos supermercados como hoje em dia – todos, aliás, com grande dificuldade para contratar funcionários e retê-los. Também nunca se viu por aqui tanta drogaria – quase uma a cada esquina. O comércio varejista vai de vento em popa, não obstante a tão comentada tendência a que este seja substituído pelas compras/vendas online. Restaurantes, cafés não param de ser acrescidos ao “estoque” de bares e pontos de serviços dos mais variados tipos. A cidade, de fato, vê a cada dia seu “corpo-cidade” visível se transformar em gigante (para os padrões urbanos brasileiros e até mesmo paulistas), embora, talvez, sua “alma-cidade” invisível esteja encolhendo. E o antigo campus Taquaral é um local paradigmático dessa mudança, para muitos, dolorosa; para outros, alvissareira.

 


Valdemir Pires e economista e escritor.

One thought on “Piracicabas

  1. Pires, que saudades dos tempos de Unimep! Dos diálogos saborosos na sala dos professores, onde as ideias fervilhavam. Que saudades de conversar com você, rir das coisas alegres, ter novas ideias, a partir do diálogo. Pena. Uma universidade pujante ficou no passado. Nostalgia? Acho que mais que isso. Sentimento de enorme perda, sentimento de não-pertencimento a uma cidade se transformando (em quê? para quem?). Eu, nascida e criada em Piracicaba, gostaria realmente que a história ao menos não fosse apagada e que o futuro a contemple como constituidora, construtora de algo melhor para todos. Abraço

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