O professor Arthur Bomtempo era oriundo de uma geração em que a cultura familiar moldava cidadãos atentos ao futuro – gente que aprendia cedo a viver sob a sombra da aposentadoria. Era um tempo em que meninos e meninas ingressavam precocemente na vida laboral, movidos pela necessidade ou pela crença de garantir uma renda digna que os amparasse na velhice.
Trabalhava-se, então, com os olhos fixos nesse horizonte distante. Não se perdia de vista o tempo, nem os registros que o comprovassem. Mais do que um ideal, tratava-se de um destino: a estabilidade legitimava o próprio sentido da vida e, uma vez cumprida a tarefa, restava celebrar, entre colegas, entre familiares, como se ali se encerrasse um ciclo natural e incontornável.
Mas os últimos anos de atividade, na administração, no chão de fábrica ou na repartição pública, eram atravessados por uma tensão silenciosa. Multiplicavam-se os que contavam os dias, anotando obsessivamente o tempo restante em folhinhas e calendários. E não raro esse compasso de espera se convertia em moléstias: ansiedade, exaustão, um cansaço que não era apenas do corpo.
Ainda assim, ao alcançar o momento tão aguardado, muitos descobriam, com surpresa ou desalento, que não estavam preparados para o abandono brusco das rotinas. Justamente quando a experiência já lhes havia ensinado os atalhos, quando o trabalho se tornava mais leve, quase automático. Era esse o dilema que o professor Arthur Bomtempo carregava em silêncio.
Professor de Língua Portuguesa, especialista em literatura, apoiava suas aulas nos clássicos. Havia em sua erudição uma força discreta capaz de conquistar os alunos e orientá-los para o valor do aprendizado; não apenas como instrumento de ascensão social, mas também como forma de compreensão do mundo. Na maioria das vezes, acreditava alcançar o que pretendia, embora soubesse que as transformações sociais nem sempre lhe eram favoráveis.
Ao fim das aulas, deixava a sala com uma inquietação persistente. O avanço da tecnologia, sobretudo após a pandemia da COVID-19, parecia ter reconfigurado a ordem social com uma rapidez quase violenta. Aquilo que, a princípio, prometia emancipação – dar voz a quem não tinha – fomentar uma espécie de democracia direta, permitir a criação e o debate sem mediações, revelava-se na prática outra coisa.
Imaginava-se que, com a circulação veloz e coletiva da informação, floresceriam o desenvolvimento humano, o apreço pela cultura e a valorização da arte. Mas não foi o que se viu.
Na escola pública, em especial após a pandemia, os sinais eram evidentes: muitos adolescentes haviam se rendido ao imediatismo, à facilidade das respostas prontas, evitando o esforço das leituras, das reflexões e do letramento. Pouco a pouco, o interesse pelas aulas se esvaía, como se aprender exigisse um tempo que já não estavam dispostos a conceder.
Sempre que entrava na sala dos professores, era tomado por um sentimento ambíguo, algo entre a nostalgia e a indignação. Bastava um olhar: o professor de Matemática batucava a mesa com entusiasmo quase infantil, ora encarnando personagens de televisão: gritinhos de Poooopeye, … risos fáceis dos colegas.
Em outro canto, sem aviso, a professora de Biologia se lançava em comentários sobre os namoricos dos alunos, as roupas, os trejeitos – e logo o trivial se convertia em debate ruidoso. Havia ainda aquele que, sem qualquer cerimônia, imitava um gato: gruuuuuh… para assustar os demais, como se tudo não passasse de um recreio prolongado.
As discussões políticas e sociais haviam desaparecido. Não por censura, isso não, mas por esvaziamento. Faltavam leituras, faltava lastro; restava o senso comum, raso, repetitivo. Melhor calar. Tornara-se, assim, um solitário. Um Dom Casmurro da educação. Sentia-se traído, não por alguém específico, mas por algo mais difuso, mais difícil de nomear. Ainda assim, resistia: bastava salvar alguns, pensava…, poucos que fossem, e sua missão estaria cumprida.
Foi nesse estado de espírito que, certo dia, a hora de estudos foi interrompida. A diretora, sempre prolixa, irrompeu com seus “esclarecimentos importantes”: – É rapinho…, logo atravessada pela secretária, igualmente falante. As duas, já de certa idade, revezavam-se na palavra com uma desenvoltura cansativa. Ele suspirou… mais uma tarde perdida em trivialidades.
Lançou um olhar ao professor de Física, seu cúmplice de leituras, e teve impressão de que compartilhavam o mesmo pensamento…Veio-lhe à mente, então, Crime e Castigo, de Dostoiévsk; e, num lampejo quase involuntário, imaginou a machadinha. As duas mulheres à frente lhe pareciam, por um instante, transfigurações das vítimas do romance. Em seguida, desviou os olhos para o coordenador, também inclinado à fala incessante, e nele projetou outra figura dostoievskiana: o homem do subsolo — “pensa que é ilustrado, mas não passa de um camundongo”.
Contrariado, sem ter tempo de fazer os lançamentos e apontamentos adequados nas plataformas, foi para a classe ministrar a aula que preparara.
No corredor, conversava com a professora de História quando, inevitavelmente, o assunto descambou para o mesmo ponto de sempre: o descaso. Falavam do governo estadual; das bibliotecas físicas das escolas extintas, falta de internet obrigando o professor a usar os dados móveis no celular, uma lei recente que impunha a entoação semanal do hino nacional, como se dali pudesse brotar algum ganho real ao desenvolvimento intelectual dos alunos; e, ao mesmo tempo, da negligência mais concreta: a ausência de funcionários da limpeza, consequência direta de uma terceirização mal conduzida.
Enquanto falava, lembrou-se de um episódio recente.
Contou-lhe que encontrara João Carlos Figueiredo, ex-aluno, numa biqueira, vendendo drogas.
Disse que o rapaz baixara a cabeça ao reconhecê-lo. Ainda assim, aproximara-se:
— Rapaz… já não reconhece mais seu professor?
A resposta viera com um misto de vergonha e surpresa:
— Puxa… não pensei que o senhor fosse me cumprimentar. Desculpe… não foi isso que o senhor me ensinou.
A professora de História interrompeu, apontando ao redor:
— Olha, isso… está virando uma esculhambação.
Havia sujeira no pátio, nas salas, nos cantos, um abandono que já não se disfarçava.
— Depois que terceirizaram, deu nisso, respondeu ele. Pagam mal, ninguém se fixa, ninguém cuida. E nem estou falando da merenda com atum…
E foi justamente nesse momento que a nova funcionária da limpeza surgiu, trazida pela diretora para apresentação.
Ele a viu, e levou um susto.
Reconheceu-a de imediato. Oito anos de escola não haviam sido suficientes para apagá-la da memória. Fora sua aluna. Sentava-se sempre no fundo, caderno fechado, entregue às conversas paralelas. Quando advertida, respondia com um olhar enviesado, irônico; e ele quase podia ler, estampado em sua expressão, o julgamento silencioso: “pagando de otário”.
Agora estavaali.
Do outro lado.
Por um instante, não soube o que pensar.
Depois, como quem busca algum consolo possível, agarrou-se a uma lembrança:
Ao menos, Roberto…. Um dos melhores da turma. Hoje, caixa de supermercado.
Na sala de aula, iniciou a leitura de “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa; conto denso, de silêncio e estranhamento. Sabendo das dificuldades dos alunos, recorreu a um artifício: projetou na TV um áudio da narrativa, enquanto eles acompanhavam o texto nos livros da coletânea. O ritmo se impôs aos poucos. E, para sua surpresa, funcionava.
Animou-se. Avançou, então, para a interpretação, puxando fios: contexto histórico, relações sociais, estudos de gênero, ecos do Modernismo. A aula ganhava corpo, densidade, resposta. Pensou, quase com ironia íntima: “Como melhora a classe quando cinco ou seis baderneiros faltam…” E logo corrigiu o próprio pensamento ao notar: “Estão perguntando… estão, de fato, perguntando.” Talvez, arriscou, fosse aquele o dia de sua melhor aula.
Foi quando Maria Lúcia levantou a mão.
Sentiu um breve entusiasmo: mais uma pergunta. Mais um sinal de escuta.
— Professor, posso ir ao banheiro?
O efeito foi imediato — um balde de água fria, desses que apagam qualquer incêndio de entusiasmo.
— Não. Você sabe que, na aula depois da janta, não pode sair. É regra da escola.
A resposta veio sem cerimônia, direta como um golpe:
— É que preciso peidar. Não quero fazer isso na classe…
Risadas.
Houve um breve silêncio — desses em que o absurdo e o cômico se confundem.
— Então vá, disse, resignado. Mas, quando tiver outra necessidade igualmente importante, tente utilizar a norma culta da língua.
Bastou isso.
A malícia, sempre à espreita, encontrou terreno fértil: a sala desabou em risadas altas, descontroladas; e, com elas, dissolveu-se, por completo, a melhor aula que talvez viesse a ser.
As risadas ainda ecoavam quando ele voltou o olhar para o livro aberto.
Hesitou por um instante.
Depois, continuou a leitura — como quem insiste, mesmo sem garantia de ser ouvido.
No dia seguinte, protocolou o pedido de aposentadoria.
Gilmair Ribeiro é escritor e professor de Língua Portuguesa.
