Nanoensaio Nostálgico

Nanoensaio Nostálgico

Antes, talvez pela minha pouca idade, o tempo feito palavra-saudade – em verdade – ainda não habitava em mim. Mas o tempo é o leiloeiro do tempo – e a procura por outros tempos, agora idos, encontrou na minha alma um ponto que é como um porto similar ao fim. Por isso, hoje, às vezes ressentido, quero ouvir à força os sons e as melodias de um mundo outrora existido e que a forca do calendário – que é dos dias seu obituário – no tempo cimentou assim.

Ai, tristeza. Solidão é não ter nos olhos a vida em inteireza – é olhar sem crer, é crer para tentar sentir, é sentir sem sentir o quê. Que a pior solidão é a de não se ter. Então, em vão, procuramos. E o que queremos? No espelho, estamos sós. Vazio. E lá vamos nós, no vazio refletido no espelho, encontrarmos o vazio que o tempo e nós mesmos criamos. E entre o que foi e o que seria, entre o que queremos e o que antes se queria (seja dentro ou fora do espelho), o tempo – que temos e vemos passar – passa, então, a se chamar nostalgia.

A nostalgia quase tudo pode. Suas cores aparecem na lembrança de tantos amores. Sua carne dura perdura na materialidade do reboco das paredes, no banco de madeira ao lado da rede, no portão que não range mais a ferrugem de tantas histórias e tantos ais, no fogão desaquecido – fogo-morto – que quase apaga o vivido (quase). E se a memória insiste, a nostalgia resiste e assiste o desejo do querer viver de novo. Ai, crua verdade. Que a lembrança de lembrar nunca se cansa – e até o ar (como ensinou Guimarães Rosa) tem cheiro de saudade.

Por isso, quando a dor da nostalgia apertar, melhor é deixá-la ficar – e não perder-se o decoro: que a nostalgia não aceita nem leva desaforo. Melhor é convidá-la para sentar, oferecer a ela um café, um canapé, um vinho, um cafuné, um jantar. Depois, e porque a nostalgia também se materializa sob a forma de som, quem sabe o melhor a se fazer seja cantar com ela uma canção de acalanto no seu tom. E deixá-la soltar a voz, livre, até ela se calar – no chão da sala, nos móveis, nos utensílios, nos quadros, nos portarretratos e dentro de nós.

Porque a nostalgia não se tem, se cria. Porque a nostalgia não se chora, se mora. Porque a nostalgia, no limite, é quase um dom – ora veja (Deus esteja e nos pague essa despesa!). Porque é preciso, por fim, que se diga (e me perdoem os sofredores inveterados como eu), confessemos: sentir nostalgia, às vezes, é tão bom.

 


Alexandre Bragion é editor do DE.

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