Metáforas

Metáforas

Fim de jornada. Uma mulher desce exausta de um ônibus em um ponto de parada. Numa quase acabada madrugada essa mulher, sobre a calçada, troca passos semi-acordada. O ônibus se vai. A mulher também – seguindo cansada em direção da casa – e, quem sabe, da cama – que a espera (se ela tiver sorte) sem drama enquanto o dia vem. O sol nasce (e eu também). Redescubro que enquanto parte do mundo dorme há outros tantos e tantas trabalhadores e trabalhadoras cuja noite o trabalho engole. Olho da minha janela a mulher que ao longe some. Peço por ela sem saber por quê. E penso, para me punir em menos, que agora enquanto outros trabalham é ela (em breve) quem dorme.

O ponto de ônibus vazio ao amanhecer me enche de esperança e tristeza. Ponto de troca, ponto de transporte. Me lembro com alguma vaga certeza de que em grego moderno a palavra que designa transporte é “metaphorá.” Por causa disso, dizem que é extremamente comum se ver essa palavra, na Grécia, em caminhões de mudança (parece que quase todos os caminhões de carga ou mudança na Grécia estampam a palavra “Metaphores” – no plural – ou “Metaphorá” em suas laterais). Transporte. Movimento. Metáfora. E o que querer mais? A madrugada se vai e só há em mim uma imensa troca de sentido, de sentimentos perdidos entre o imaginado, o sonhado e o vívido.

As manhãs me incomodam sobremaneira – ao que pese eu gostar tanto delas. As manhãs e suas janelas. As manhãs e suas ruas cinzentas entre luzes que vão se apagando, amarelas. As manhãs entre as metáforas que crio sobre o ar frio que invade a alma das mulheres trabalhadoras que descem solitárias em pontos de ônibus vazios. As manhãs e suas trocas. As manhãs e seus transportes que passam carregados de gentes. Metaphores. E eu que me aguente tentando controlar a ansiedade ao pensar que, logo, também me deixarei engolir pela cidade.

Metáforas. Do outro lado do mundo há também lugares sem trocas, sem pontos de ônibus e sem mulheres chegando exaustas do trabalho noturno nas empresas. Movimento. E o que eu e a mulher que vi descendo do ônibus – e que a esta altura deve estar tirando suas botas de operária – sabemos, por exemplo, das bombas que calam o existir da vida no oriente extremo? Erramos a troca de turno. Erramos a metáfora. Erramos, no fundo, em quase tudo. E diante da guerra (americana) que mata crianças e idosos me lembro (e parece que me alieno da vida) como Kafka – que no dia 2 de agosto de 1914 escreveu em seu diário: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. — À tarde, escola de natação.” (“Deutschland hat Rußland den Krieg erklärt. – Nachmittag Schwimmschule.”). Pobre coração. Triste ponto de ônibus. Vago vazio nada.

Mais um ônibus se aproxima, mas não para – e o ponto de ônibus ausente se faz presente em minha mente como metáfora semi-clara. Então, penso no filme “Flores Raras” (de 2013), dirigido por Bruno Barreto. Nele, Glória Pires interpreta a arquiteta e paisagista brasileira Lota de Macedo Soares (idealizadora do Parque do Flamengo), enquanto a atriz australiana Miranda Otto interpreta a poeta americana Elizabeth Bishop – poeta que, em 1964, com os militares assumindo a cena em ato vil, viu e escreveu que no Brasil (a la Kafka), com toda a verdade que com o sol raia, o povo, nesse fim de tarde de 1 de abril de 64, em Copacana, seguia jogando bola praia.

Falso saber. Metaphores. O dia começa em movimento lento. Meu coração chora em silêncio diante do ponto de ônibus solitário. Há tantas guerras acontecendo que nem sei como e por que ainda me crio. Logo eu, que pelas manhãs me transporto em dores (e em poucas cores) e às tardes não tenho jogos de futebol na praia ou aulas de natação. Outro ônibus passa. Para onde vai?  Ai de mim. Ai de nós. Talvez nos leve até Kafka. Talvez seja só metáfora.


Alexandre Bragion é editor do Diário do Engenho.

 

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