As eleições e o Oscar. O Oscar e as eleições

As eleições e o Oscar. O Oscar e as eleições

Os artistas são as antenas da raça, definiu o poeta Ezra Pound em seu (hoje clássico) livro “O ABC da Literatura”.  Ampliada – cerca de trinta anos depois – pelo teórico da comunicação Marshall McLuhan, a sentença que coloca os artistas como receptores que captam as mudanças culturais, sociais e intelectuais antes do restante da sociedade e as manifestam – de alguma forma – na construção e elaboração do objeto artístico parece que continua atuante e – cada vez mais – gerando exemplos.

No mesmo sentido, a arte (fruto – ou seria melhor dizer produto? – dessas antenas) segue – felizmente – provocando, cutucando e incomodando ao público (ou seria melhor dizer a sociedade?) como (também felizmente) deve incomodar. E se a realidade cruel parece chocar menos do que sua representação em uma charge, numa fotografia ou em uma encenação, o que dizer do incômodo que o cinema (arte que congrega tantas linguagens) consegue (outra vez felizmente) produzir nas pessoas – a ponto de fazê-las se manifestar em redes sociais ou em outros espaços de discussão sobre o que pensam acerca do que se vê nessa ou naquela produção.

Com a estrondosa evolução do áudio visual brasileiro – iniciada ao menos nas duas últimas décadas (e mais perceptível ao grande público nos últimos anos) – o cinema nacional (quem diria) passou a ser tema de calorosas conversas e até de entreveros políticos ideológicos a agitar as torcidas partidárias multicoloridas, e a mobilizar também (e inclusive) críticos, comentaristas e jornalistas da grande mídia.

Para se ter uma ideia, e para ficarmos apenas em um exemplo, a Folha de São Paulo – ao noticiar que o filme “O Agente Secreto” não havia ganhado o Oscar em nenhuma das quatro categorias para as quais estava indicado – sentenciou: “Uma Batalha Após a Outra” é o grande vencedor do Oscar, que ignora “O Agente Secreto.”  Ora! É claro que os internautas mais atentos não deixaram passar essa escolha do verbo ignorar que se destaca na manchete  e, em peso (vale ler os comentários no Instagram da Folha), destacam que um filme que tem quatro indicações ao Oscar não pode ser considerado, de modo algum, um filme “ignorado.” Outros, mais diretos (dentre tantos) afirmam que a manchete da Folha revela, mesmo, que as eleições (e as escolhas dos meios jornalísticos por candidatos que representem suas opções políticas) já começaram.

Na mesma linha, o público de leitores mais afeitos ao espectro ideológico da direita (deixando de lado qualquer verve nacionalista que tanto os caracteriza) vibrou com o fato de “O Agente Secreto” não ter recebido um Oscar. Associado à esquerda – e ao governo Lula (que cumprimentou pessoalmente ao ator Wagner Moura pelas indicações do filme ao Oscar) – “O Agente Secreto” (tal como “Ainda Estou Aqui”) passou a ser entendido como obra da esquerda e representante do atual governo federal. Nas redes e nos comentários de sites e jornais que noticiaram a não premiação do filme de Kleber Mendonça Filho, não raro pode se encontrar até mesmo “memes” com a imagem do presidente Lula em alguma situação cômica ou irônica (numa alusão grotesca ao presidente e ao filme em si).

Por fim, e dentre tantos posicionamentos que pouco comentam sobre a qualidade do filme de Kleber Mendonça Filho, cabe destacar um pequeno vídeo que a jornalista Paula Varejão – célebre em produzir e apresentar excelentes programas sobre o café – colocou em sua time line no Instagram antes do Oscar e no qual ela afirma que – como gosta do Brasil – irá torcer pela premiação do filme, mas que lamenta a forma sempre “negativa” que “a gente se apresenta” no cinema, com “violência”, “corrupção,” “pobreza” e (pasme-se) “paisagens horrorosas” – dentro outros destaques que a jornalista considera negativo. Ficamos aqui pensando se dentre as paisagens horrorosas às quais ela faz referência estaria (torçamos para que não) a cidade de Recife. Será?

Em meio a tantas opiniões e colocações no mínimo estranhas, não resta dúvida de que o cinema nacional, em muito, já antecipou o tom dos debates (populares ou não) acerca dos símbolos da nossa nacionalidade e – claro – acerca das próprias eleições. No fogo cruzado das paixões políticas, ficamos com o que escreveu o site de humor Sensacionalista: “Copa do Mundo agora é obrigação, diz brasileiro após a derrota no Oscar”.

Te cuida Ancelotti!

 

 

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