Universidades se fazem em sua capacidade de ensinar, pesquisar, refletir e fazer pensar – especialmente em função das pessoas que as constituem em termos acadêmicos, outras como funcionárias, algumas como lideranças estudantis. Mas também pela sua relação com a comunidade onde existem, com os espaços que lhes são garantidos, com a prioridade que lhes é dada – mesmo que o que garanta seu reconhecimento seja a universalidade do seu saber e, em tempos de globalização, sua capacidade de relacionar-se com um mundo sem delimitação clara de fronteiras, povos e governos.
Nesse sentido, alguém ousaria imaginar a UNIMEP em outra cidade que não Piracicaba? Há instituições que, de tão universais que se julgam, poderiam se estabelecer e se sentir em casa em Carapicuíba, Roma, Miami ou qualquer outro lugar. Não creio, no entanto, que isso seria possível à UNIMEP – naturalmente, não estou falando da minúscula instituição que hoje ainda leva o nome de Universidade Metodista de Piracicaba, mas daquela dos anos 1980 até a primeira década do século XXI.
Não, a UNIMEP nunca teve o sotaque caipira – não foi isso que a fez piracicabana.
Foi algo muito maior. Foi seu compromisso com a cidade – tanto a cidade da periferia como a do centro, com suas intenções de contínuo progresso. Foi sua empatia, seus espaços abertos às demandas de Piracicaba que a universidade insistia em conhecer e responder.
Que o digam os favelados que, nos anos 1980, entravam e saíam dos corredores da UNIMEP como se ela (felizmente) fosse a casa deles. Porque era nos espaços que habitavam, em seus barracos, ruas sem asfalto e com a precariedade do transporte, que a UNIMEP “ia”. Com seu Projeto Periferia, atendendo a crianças cujo número de creches da cidade era incapaz de responder; com projetos de alfabetização de trabalhadores da construção civil; com projetos de habitação popular e de saneamento; com proteção oferecida, inclusive na área jurídica, àqueles que tinham dificuldade de acessar seus direitos.
Que o digam, também, os próprios piracicabanos mais conservadores, que se viram envolvidos, nos anos 1980, em alojar os estudantes que chegavam de todo o país para o congresso da UNE – e que fizeram a cidade mudar, sem que nada de ruim acontecesse. Piracicaba se tornou centro das atenções do país.
Que o digam também os empresários que, aos poucos, foram percebendo que, no chão das fábricas e no comércio, suas necessidades de profissionais eram supridas pela UNIMEP.
Que o digam as dezenas de artistas plásticos da cidade, de músicos, de gente de teatro que foram acolhidos em seus campi para mostrar suas pinturas, suas composições, seus espetáculos, com a devida valorização de sua arte. Quem consegue esquecer o icônico espetáculo do grupo Andaime, por exemplo, “Lugar onde o peixe para”? A prioridade de áreas de exposição, das salas do Martha Watts, sempre foi garantida aos e às artistas da cidade. E o Cineclube Humberto Mauro, que trazia, no período da tarde, muitos dos moradores do CECAP para assistirem a filmes brasileiros aos quais eles nunca teriam acesso?
E o esporte que tanto fazia a cidade vibrar, berrar, torcer? O que dizer do basquete feminino que a UNIMEP fez acontecer e que envolveu a cidade em torno dessa modalidade por anos? E o atletismo? E o tênis de mesa?
O cheiro de Piracicaba, cheiro do rio que há tanto luta contra a poluição, quantas vezes foi incorporado pela UNIMEP, com suas lutas, apoio aos grupos que defendiam a preservação – trazendo, ainda nos anos 1980, especialistas do mundo todo em direito do meio ambiente, quando ainda nem se falava nisso no Brasil.
A UNIMEP tem nome, cheiro, sabor de Piracicaba. Daquilo que viveram os milhares de estudantes que vieram de muitos outros locais e tiveram seus melhores anos nos barzinhos, nas repúblicas, na Rua do Porto. Que levaram consigo, em sua memória adulta, tudo isso que a cidade era e fazia acontecer.
A UNIMEP tem nome, cheiro, sabor de Piracicaba. Ainda que muitos de seus professores e funcionários tenham tido que procurar outros locais de moradia, outras atividades de sobrevivência nos últimos anos. A memória ficou. As publicações e conversas dos últimos dias não negam. A UNIMEP só poderia mesmo ter acontecido e ser de Piracicaba.
Beatriz Vicentini é jornalista.
