Certamente se trata de fake news ou de anedota. Não sei. Mas tomar o fato como ponto de partida, aqui, não requer tenha sido ele verdadeiro.
Um piloto de aeronave brasileiro, aproximando-se do aeroporto de Dubai – então sob ameaça de ataque iraniano – teria se comunicado com os passageiros do voo lamentando a impossibilidade de pousar, com o requinte (de consolo ou de maldade, sabe-se lá) de convidá-los a saberem apreciar o fato de (apesar da frustração inerente à situação) estarem apreciando do alto (de camarote) o início da Terceira Guerra Mundial. Arrematou dizendo que para poderem contar esta exclusiva aventura aos netos, os senhores passageiros e as senhoras passageiras precisariam permanecer vivos, assim justificando o procedimento de abortar a pouso.
É certo que não apenas o hipotético (ou real, sabe-se lá) comandante de voo avalia que estamos assistindo à eclosão de um terceiro conflito armado de dimensões globais. Tanto assim, que há meses, talvez alguns poucos anos, as potências econômicas e bélicas estão se preparando para o que Donald Trump está acelerando sem freios: a articulação de alguns enfrentamentos para se chegar a uma definição do novo quadro geopolítico emergente desde o fim da Guerra Fria, ao ritmo acelerado da consolidação da China como candidata à nova supremacia. Não há cachorro grande que não esteja arreganhando os dentes, os cachorros miúdos se aproximando dos seus “fortões” preferidos, enquanto o adestrador para a paz (ONU) não dá conta de amansar as feras.
O que faz uma guerra extrapolar fronteiras regionais, podendo ser considerada mundial, é o seu impacto no equilíbrio de interesses e de forças entre todos os países, afetando diretamente, embora por vias indiretas, as mais variadas e distantes realidades, de modo que fica impossível aos jogadores relevantes não entrar no jogo, nem que seja para ficar no banco de reserva. E parece que é uma situação com esta característica que está se originando após o ataque dos Estados Unidos ao Irã. Decisão tomada e implementada em parceria com Israel, aparentemente sem combinar com os aliados da Península Arábica, agora sob ataque e possivelmente tendo que “entrar na guerra” por razões defensivas.
Como o conflito se estabelece no lugar do planeta em que se situam reservas de petróleo e gás de que todo o mundo depende (e a China, o alvo não declarado, especialmente), com o agravante de que o transporte do recurso da fonte para os locais de utilização passa por caminhos marítimos passíveis de fechamento pelo Irã (Estreito de Ormuz), uma nova crise do petróleo compõe o cenário já de início, com impacto nos preços do barril e, portanto, nos preços em geral – o que já vai desenhando uma inflação de guerra. Essa pressão inflacionária global aparece como reforço a outra de mesma natureza, que é a economia armamentista que está se levantando há alguns anos em detrimento ou em concorrência com a produção de produtos civis, cuja escassez também elevará preços. Além disso, se a Península Arábica se confirmar definitivamente como o palco das ações armadas, ter-se-á, do lado real da oferta, a destruição da capacidade industrial de extração de petróleo e gás (como aconteceu recentemente no Kuwait sob ataque de Sadan Hussein) e também a devastação de cidades-vitrine da especulação imobiliária global, com forte impacto nos mercados financeiros e bursáteis. Não menos importante: uma Terceira Guerra Mundial abalará o dólar como moeda das transações comerciais e operações financeiras em todo o mundo, ninguém sabendo completamente o impacto (certamente negativo) disso no crescimento dos PIBs e do emprego em cada país, afetados pelas mudanças na oferta e demanda do comércio e das finanças mundiais.
A ansiedade – de lado a lado, para decidir o conflito logrando vitória – leva a que o princípio (da guerra) de concentração de forças implique ataques tão massivos quanto o poder de cada um permite. Não ocorrendo decisão, apesar disso, os confrontos se arrastam, os esforços característicos da economia de guerra e as decisões políticas correspondentes se espraiam no tempo, a guerra terminando, sabe-se lá quando, praticamente por exaustão, sob custos humanos e civilizatórios incalculáveis. Isso se a escalada não atingir o patamar atômico e então, a própria noção de cálculo poderá, ela própria, desaparecer.
A Segunda Guerra Mundial inaugurou uma era de capacidade destrutiva de que os participantes da Primeira (mesmo antes de Hiroshima e Nagasaki) nem sonhavam ser possível. A Terceira, mesmo sem recorrer às numerosas ogivas nucleares atualmente existentes, representará um novo salto destrutivo. Qual o limite?
O momento, certamente de apreensão e medo, tende a ser também de alinhamentos, não só entre interesses (afinal são eles que estão se confrontando para ver qual prevalecerá), mas também de visões de mundo alternativas, pessoas e grupos escolhendo lados para apoiar efetivamente ou apenas torcer, com raiva e ódio para um ou outro dos atores principais. É hora, pois, de clamar, sem cessar, pela paz acima de tudo – e acima de cada um, a favor de todos.
Todos têm muito a perder com uma possível Terceira Guerra Mundial, mesmo aqueles que ganham com os impactos dos conflitos. Se desses possíveis ganhadores ocasionais nada se pode esperar em defesa da paz, que ao menos dos que claramente perdem – inclusive a vida, sem que nada faça, a não ser tentar continuar vivendo “normalmente” em suas cidades – se possa conseguir que, pelo menos, empunhem juntos uma bandeira branca.
O conflito em curso é também contra a ONU e contra o multilateralismo: conquistas muito caras para serem ignoradas e deixadas ao sabor das decisões dos donos da guerra e ocupantes dos poderes formais. Portanto, as armas invisíveis do discurso e da mobilização devem ser massivamente utilizadas pelas “forças” cidadãs e pacifistas, cientes do cenário escorregadio do debate e da discussão no atual ambiente das tecnologias da comunicação e da informação (TICs), em que verdade e mentira se confundem e se misturam com enorme facilidade.
Valdemir Pires é economista e escritor.
