Sobre o desenvolvimento da conjuntura eleitoral nacional e os princípios gerais da luta política: os eventos de 29/09 a 02/10

Quem são os nossos inimigos? Quem são nossos amigos? Essa é uma pergunta importantíssima fundamental para a luta política.

Mao Tse-tung

É preciso fazer um balanço urgente das últimas movimentações (29/09/18 a 02/10/18) no interior da conjuntura eleitoral nacional. Para tanto, precisamos estabelecer os elementos fundamentais em jogo na situação concreta.[1]

Estamos numa dura conjuntura eleitoral nacional, quais são os seus elementos fundamentais:

  1. Existem dois campos políticos fundamentais expressos em diversas candidaturas:
  • Campo Político Neoliberal Ortodoxo/ conservador e racionário (CUJA POLÍTICA ECONÔMICA E SOCIAL É A DO CONTINUÍSMOS DO GOVERNO TEMER COM UMA O OUTRA VARIAÇÃO SECUNDÁRIA: destruição total dos direitos sociais e trabalhistas; Privatizações e desnacionalizações dos setores estratégicos restantes da economia nacional; desregulamentação do sistema bancário/ financeiro nacional, desregulamentação do mercado nacional da construção pesada – grandes obras públicas etc. = Em suma sujeição total e irrestrita da economia nacional ao Imperialismo, particularmente, estadunidense).

O campo político neoliberal ortodoxo pode ser resumido pelas seguintes bandeiras: Antinacional; Antidemocrático e Antipopular.

  • As candidaturas que disputam eleitoralmente a direção deste campo são:
    1. Alckmin (PSDB e grande coligação de partidos do chamado “centrão”);
    2. Bolsonaro (PSL e PRTB);
    3. Marina Silva (REDE);
    4. Meirelles (MDB);
    5. Álvaro Dias (PODEMOS);
    6. João Amoedo (NOVO);
    7. Eymael (DC);
    8. Cabo Daciolo (Patriotas)

 

  • Campo Político Neodesenvolvimentista/ democrático e progressista(CUJA POLÍTICA ECONÔMICA E SOCIAL SE CARACTERIZA PELA DEFESA DE UM PROGRAMA MÍNIMO DE DESENVOLVIMENTO E AUTONOMIA DE SETORES FUNDAMENTAIS DA ECONOMIA NACIONAL – ESTATAL E PRIVADA – E DE UM MERCADO NACIONAL DE MASSAS MÍNIMO – DISTRIBUIÇÃO DE RENDA MÍNIMA EM ESCALA NACIONAL). Este campo defende não uma ruptura radical com o imperialismo, mas uma posição de relativa autonomia e concorrência com o imperialismo. Este campo também está expresso em diferentes candidaturas com variações secundárias.

O campo político neodesenvolvimentista pode ser resumido pelas seguintes bandeiras: Proteção de setores estratégicos da economia nacional – energia e combustíveis (petróleo e gás); construção pesada e grande agropecuária capitalista (agronegócio), desenvolvimento mínimo de um mercado de consumo de massas; política mínima de distribuição de renda e defesa dos direitos sociais e trabalhistas.

  1. Fernando Haddad PT/PCdo B;
  2. Ciro Gomes PDT;
  3. Guilherme Boulos PSOL/PCB e Movimentos sociais populares – MTST;
  4. Vera Lúcia PSTU;
  5. João Goulart Filho PPL.

Nossa análise se dirige ao balanço político/eleitoral dos atos do último sábado no Brasil e em outros países, dia 29/08, convocados por uma série de coletivos, organizações ligadas à luta feminina, acompanhados por coletivos ligados à luta LGBT e à luta de coletivos e organizações negras.

O movimento lançou a apalavra de ordem #EleNão, com convocações massivas nas redes sociais, se dirigindo contra as posições e discursos do candidato Jair Bolsonaro no terreno dos costumes, comportamentos, isto é, dos direitos individuais.

A manifestações certamente legitimas, pelos direitos democráticos individuais das mulheres, dos LGBts, dos negros, porém há que considerar que os atos provocaram uma reação conservadora no plano eleitoral: Bolsonaro que se encontrava paralisado e com tendência de queda teve uma acréscimo das intenções de votos, e o candidato que lidera o campo neodesenvolvimentista, Fernando Haddad, que vinha em movimento eleitoral ascensional, teve uma queda.

Por que um ato numericamente expressivo contra o discurso de um candidato pode produzir o efeito eleitoral contrário? Crescimento eleitoral do inimigo, Bolsonaro?

É preciso aplicar na compreensão desse efeito aparentemente paradoxal, critérios objetivos de avaliação da dinâmica da luta política.

Primeiro, reconhecer o fato objetivo que grande parte da população é mobilizada no terreno dos costumes, comportamentos, pela ideologia moralistas religiosa conservadora (tradicional), com especial destaque para as comunidades religiosas neopentecostais, que tem tido um crescimento nos últimos 20 anos considerável, intensificando o discurso do indivíduo, do individualismo, da “meritocracia”, em registro expressamente conservador, sobretudo, no tratamento das questões femininas e LGBTs, dos negros e indígenas. [2]

Outro elemento importante e que esta na base da correta compreensão do motivo pelo qual a candidatura Bolsonaro assistiu um crescimento eleitoral após o ato #EleNão de 29/09/18. A candidatura Bolsonaro tem uma conexão orgânica com as bases eleitorais ligadas às comunidades evengélicas, tendo como o seu principal discurso o combate aos “inimigos da família e dos valores tradicionais cristãos”.

O que nos coloca a seguinte questão: Bolsonaro é forte no terreno no qual o debate político democrático é mais facilmente dissolvido por um discurso moral e religioso.

É forçoso reconhecer que objetivamente o discurso político pelos direitos democráticos individuais das mulheres, dos LGBTs e dos negros e indígenas não articulado explícita, orgânica e claramente às questões econômicas e sociais fundamentais – defesa da economia nacional e dos direitos sociais e trabalhistas – se torna munição gratuita ao inimigo, Bolsonaro e, mais, todo o campo político neoliberal ortodoxo.

É sabido que Bolsonaro dispõe de um poderoso aparato de comunicação/desinformação de guerra, assentado nas redes sociais e que tem ligação direta fora do mundo virtual nas comunidades evangélicas, tendo os pastores como soldados de difusão de mensagens sobre a comunidade evangélica.

É sabido que houve uma operação de guerra/terror nos cultos dominicais utilizando de modo intencionalmente distorcido materiais, sobretudo, imagens e áudios, associado ao discurso de destruição da “família tradicional e dos valores cristãos”, vinculando isto tudo genericamente à esquerda, ao campo político-neodesenvolvimentista, sobretudo vinculando essas falsificações à candidatura Haddad/PT.

Esse movimento de cerco e ataque à candidatura Haddad/PT, foi intensificado no domingo de noite por meio da performance de “aliados” – integrantes do mesmo campo político – Ciro Gomes/PDT à frente e secundarizado por Guilherme Boulos/PSOL que cerraram fogo reforçando os esperados ataques dos membros do campo inimigo, Alckmin/ PSDB, Marina/ REDE, Álvaro Dias/ PODEMOS.

A conjunção desses eventos, atos pelo #EleNão no dia 29/09 no país e Debate Presidencial da Emissora de Televisão Record de 30/09, foi fartamente utilizada, como munição oferecida “gratuitamente” por integrantes do campo  neodesenvolvimentista, pelo Grande Aparato de Comunicação Burguês (Grandes Jornais e Emissoras de TV/Rádio) agentes do Campo Político Neoliberal. Tais eventos alinharam o discurso/ataque a Haddad/PT na abertura dessa última semana para o primeiro turno eleitoral, que ele seria um candidato“extremista”, que prepararia um golpe institucional/ através da convocação de uma Constituinte “por cima do parlamento” etc.

Aqui importa lembrar e, avisar para os que não conhecem,o fato de que a luta política tem leis gerais próprias que a regem, a luta política não se desenvolve numa contingência vaga nem de modo aleatório, nem como produto da mera vontade subjetiva dos agentes em luta.

Alguns dos princípios básicos objetivos a serem observados em qualquer luta social (política, econômica, comunicacional ou militar) em qualquer terreno, tempo e lugar são:

  • Princípio da divisão do inimigo e da passagem à ofensiva: Construir uma tática que arraste o inimigo para o terreno onde ele é débil, onde ele está desarticulado e desorganizado. Arrastar para o debate de política econômica e social inimigo, pois esse é o terreno onde ele se defende mal e não reúne forças para desferir um ataque.
  • Princípio do ataque tático: Ataque com toda a força possível o inimigo onde ele é débil, onde ele tem dificuldade de se defender e contra atacar. Lançar discursos e comunicações sobre os direitos sociais e trabalhistas e como o inimigo trata essas questões, liquidação dos direitos sociais e trabalhistas, fim do 13º, das férias remuneradas, ou seja, conservação e aprofundamento do ataque aos direitos sociais e trabalhistas.
  • Princípio do ataque final/ estratégico – Não se ataca frontalmente o inimigo onde ele é forte; para atacar um inimigo onde ele é forte a força atacante tem que ter a garantia objetiva que esse ataque é definitivo e liquidacionista – se não se tem essa certeza não ataque por aí –,não se faz nos pontos fortes do inimigo um mero ataque provocativo, que deflagrará uma reação poderosa do inimigo, pois estamos no terreno onde este é forte para se defender e para contra atacar. Não se ataca um inimigo que é forte no plano do discurso moral (conservador e religioso) com um “discurso político” que pode se rfacilmente dissolvido no discurso moral conservador (religioso) e, mais, fortalecer com munições suplementares o inimigo. Não se faz um movimento ofensivo no terreno onde o inimigo é mais poderoso, dispõe de maior força de defesa e de (contra) ataque.

Em síntese:

Tomemos um exemplo do domínio da táctica. Suponhamos que escolhemos o ponto de ataque sobre um dos flancos do adversário, que o ponto fraco do adversário se encontre justamente aí e que, por consequência, o nosso assalto tenha êxito. Nesse caso, o subjectivo correspondeu ao objectivo, isto é, as informações de que dispunha o comando, a sua apreciação e decisão, correspondiam à situação real do adversário e ao seu dispositivo de combate. Se, pelo contrário, se optou por levar o ataque sobre o outro flanco ou sobre o centro do adversário e, em consequência, caímos num beco e não pudemos avançar, isso quer dizer que não houve correspondência entre o subjectivo e o objectivo. Se o momento de ataque foi escolhido de maneira justa, se as reservas foram transportadas a tempo e se todas as disposições tomadas no decurso do combate e todas as ações empreendidas foram em nosso favor e desfavoráveis ao inimigo, isso significa que, ao longo do combate, a direção subjectiva correspondeu inteiramente à situação objectiva. Tais exemplos de correspondência plena, no decurso duma guerra ou combate, são extremamente raros, pois os beligerantes são colectividades de seres vivos armados que operam dissimulando, cada uma, os seus segredos. De maneira nenhuma as coisas se passam como quando se tem de fazer face a objetos inanimados ou a atos da vida quotidiana. Todavia, se as diretivas dadas pelo comando correspondem nas suas grandes linhas à situação real, isto é, se os seus elementos de importância decisiva correspondem à situação real, as condições da vitória estão realizadas.(TSE-TUNG, 1975, p.310-311).[3]

Portanto, é preciso sempre distinguir, a cada momento e cada movimento nosso e do nosso inimigo, cada desenvolvimento da conjuntura (eleitoral) o principal do secundário, nesse sentido é preciso reconhecer que o principal é a luta no terreno econômico e social, pela reversão da política governamental econômica e social em curso e que pretende através da vitória eleitoral de um dos candidatos do campo político neoliberal ortodoxo com Bolsonaro/PSL/PRTB a candidatura eleitoralmente hegemônica neste campo.

Isto é, a luta pelas liberdades democráticas individuais legítimas das mulheres, dos LGBTs, dos negros e indígenas só podem avançar e lograr êxito político no bojo da luta política principal na presente situação concreta, a luta política democrática pelos direitos sociais e trabalhistas da maioria do povo, pois essa é a base material para a vitória daquelas lutas. Fora disso, a luta pelas liberdades democráticas tende a sofrer sucessivas derrotas.


NOTAS

[1] A afirmação da existência de dois campos políticos fundamentais e a localização das diferentes candidaturas é parte de um procedimento analítico, e como tal, deve ser relacionado à situação objetiva e não tratado como um modelo/ formula que substituiria a análise concreta, é um instrumento de intelegibilidade do processo social. O que implica compreender que os diferentes agentes sociais (partidos/ candidatos) podem movimentar-se em diferentes direções políticas inclusive rompendo momentânea ou mesmo permanentemente com seu campo político de “origem”.

[2] É certo que há correntes religiosas ditas evangélicas “democráticas” e que incorporam positivamente as bandeiras femininas,LGBTs, étnicas (negros e indígenas). Mas essas correntes são minoritárias.

[3] Mao Tsé-tung desenvolve todos os principais termos dessa questão em seu importante Problemas estratégicos da guerra revolucionária em China, 1936. Em particular no Cap. 1, seção 4 “O importante é saber a aprender”.Obras Escolhidas Vol.1, 3ªEdição Alfa-Ômega, 1975.


Professor Gustavo dos Santos Cintra Lima. 

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