Sobre o anti-intelectualismo que nos assola

 

Percebemos que um país está à beira do precipício do totalitarismo quando a escola, o saber, os livros e as variadas formas de conhecimento são ameaçados por aqueles que, investidos no poder, veem na educação e no aprendizado inimigos a serem combatidos. O fundo desse precipício, por sua vez, se revela quando esses mesmos “poderosos” conseguem praticar seus intentos maléficos – queimando livros em praças públicas, perseguindo e matando professores e escritores, quando atacam e fecham escolas e universidades, quando ameaçam e atacam discentes e comunidades escolares. Ao arrepio da lei, a força estatal contra o conhecimento impõe-se assim a partir de um estado de exceção – explícito ou não – no qual escorre pelo ralo tudo o que a letra da lei prevê e estabelece em benefício do conhecimento e da formação da população.

Inúmeras vezes a história da humanidade já presenciou momentos dantescos dessa descida ao abismo civilizatório imposto por governos totalitários. Não há nenhuma novidade nisso. Por outro lado, o que pode parecer novo num cenário como esse é esperar que a população – diferentemente do que quase sempre viu a história –  se coloque a favor dos que impõe a ignorância como norma. Ou seja, diante de um modelo decrépito de gestão educacional – ou na ausência de qualquer gestão  – espera-se que a população de qualquer país afetado por esse mal se coloque, à medida do possível, contra aqueles que querem destruir o saber e a educação intelectual, e reivindique o seu direito. Apoiar a quem quer eliminar a escola e a quem combate o conhecimento parece tão surreal quanto ser obrigado a queimar livros em praça pública.

Choca-nos, assim, saber que boa parte dos brasileiros aceitam como corretos os ataques do desgoverno atual contra a educação – de modo geral. Mais do que isso, choca saber que para muitos brasileiros o conhecimento é algo desnecessário e que disciplinas como filosofia, sociologia e outras da área de humanidades são inúteis. Nesse sentido, vemos que estamos descendo pelo precipício da barbárie quando intelectuais são ridicularizados, quando pensadores são trocados por apresentadores de televisão e youtubers, quando o aprendizado é tratado como um apêndice para um povo que – na visão canhestra desses anti-intelectuais – deve saber apenas lidar com a enxada no trabalho braçal no campo e na cidade, e nada mais (impondo aos menos favorecidos a impossibilidade qualquer forma de elevação intelectual e escolar).

No Brasil, ao que parece, o anti-intelectualismo não está apenas na agenda do desgoverno federal e dos demais poderes executivos e legislativos da nação. No Brasil, o anti-intelectualismo está também na mente e na boca de muitos brasileiros – incapazes de entenderem a função da escola e a importância do saber. A ojeriza a quem estuda, a repulsa ao intelectualismo, a ridicularização do conhecimento, por muitos, mostra que ainda somos um povo colonizado e que segue à risca os ditames de seus colonizadores (do passado e do presente). Como que pertencentes a castas burras, muitos ainda se esforçam para apoiar ações contra a cultura, contra a educação, contra a intelectualidade – vista às vezes como “classista” e arrogante. Quantos se importam, por exemplo, com o fechamento de livrarias e editoras no Brasil? Quem se ressente da extinção de orquestras, do fechamento de teatros, da falta de políticas públicas para a cultura, da extinção do Ministério da Cultura, dos ataques a Institutos e Universidades Federais?

Estando em nosso DNA de colonizados, o gene do anti-intelectualismo precisa ser estudado, combatido e modificado – sob pena de, sem isso, jamais conseguirmos progredir enquanto nação. Para tanto, é necessário descobrir as raízes desse anti-intelectualismo e entender por que elas ainda se alastram pelo país.  Na mesma linha, é necessário transformar a realidade – pleiteando por novos direitos e pela manutenção dos que vigoram desde outros governos. É preciso resistir. É preciso produzir e difundir – mesmo contra a corrente – cada vez mais o fazer artístico, o gosto pelo conhecimento, pela escola, pelo saber.

Caso contrário, estamos fadados a viver no limbo mais sujo da burrice a que querem nos lançar para sempre. E ao lado da estupidez, caminha sempre a violência, a repressão e a destruição do valor humano. Não é à toa que as proféticas palavras do pensador judeu-alemão Heinrich Heine (1797-1856), escritas há quase 200 anos, foram atuais no nazi-fascismo do século XX e continuam sendo no Neofascismo do século XXI: “Onde queima-se livros, no final queima-se também pessoas.”

 

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