Rezar às almas

Rezar às almas, às almas, ave! Nem é finados, nem mortalha dos mortos. Nem há carpideiras cabralinas cuspindo mistérios gozosos que mentidos. Não há velas veladas por encostas igrejas atrás de cruzes e urzes. Não há pessoas que caminham juntas, unidas, a enterrar seus falecidos-extintos. Ou há? Que o dia até parece finados, parece, mas não propriamente o é. Que o dia até que deve, afinal, ter seus mortos costumeiros – que prosaicos – a serem enterrados nos cemitérios das gentes, no é claro das coisas. Todavia, em porém de sentidos, há sobre as cinzas das horas da semana outros cadáveres mais mórbidos que sofridos, menos gentis que cordatos, a fazerem a gente seguir (em engano ledo e cedo) a romaria dos infelizes mal ajambrados.

As almas, as almas. Miasmas do pensamento. Quanto vivem as almas antes de se abalarem de vez para o firmamento – se é que um dia se abalam para lá (o que duvido)? Quanto vivem as almas por aqui – catimbando a vida em troca de alguns trocados – entre muitas cabeças duras e pouco aprendizado? Afinal, onde vive o mal, senão entre nós, ó almas? Onde, senão em nós, ele melhor toca? Impreciso precisar o mundo-descaminho que troteia a patadas largas pela cachola alheia. Às vezes, no até pensamos, ficamos de acreditar que com a arte mudamos destarte muitas rotas perdidas, muitas criaturas envelhecidas e transformadas nos fósseis da violência que semeiam. Às vezes, até acreditamos. Pois há tanto aqui por acreditar.

Há por aqui música sempre vagando à toa no ar. Há cores possíveis. Há cantos de amor. Há humores risíveis camuflando a dor. Há aquarelas aos montes. Há teatro. Há Fernando Pessoa. Há literatura no rádio. Há um rio que corta a cidade. Há arte de verdade a querer despertar o lado bom das pessoas. Há criação. Há poesia. Há igrejas (as honestas) propagando a fé no próximo com alegria. Há pulsões de desejo. Há olho no olho. Há abraços. Há beijos. Há esforços coletivos empenhando ações populares pela cultura. Há todo um mundo de oportunidades artísticas para se enfrentar, da existência, a parte mais dura.  Mas, nada. Nada parece adiantar quando a estiagem do pensamento é tão congenitamente aguerrida e nos planta a certeza certa de que em terra seca e endurecida pouco pode a semente do amor e da vida.

Às almas, às almas, então rezemos. Rezemos contra o mal olhado de um peixe feio-encalhado que agoniza diante dos que passeiam. Às almas, às almas, rezemos. Rezemos às almas dos vaqueiros do asfalto, que lotam arenas odiosas de rodeios e desconhecem qualquer centelha do pensamento que não seja um pobre bezerro cruelmente imolado fazendo muuu. Rezemos! Rezemos pelos que, de chapelão, apostam na espingarda e no esporão. Rezemos pelos que não querem apenas ver fritar na cadeira elétrica o irmão – porque querem mais, querem (se possível) eles próprios apertar o botão. Às almas. Às almas. Rezemos! Que por ora só nos resta mesmo rezar e clamar a Deus pela fé. Rezemos pelas almas que duvidam dos livros. Oremos pelas almas que negam a escola. Peçamos a Deus pelas almas que se imaginam mais capazes do que qualquer professor. Rezemos ao Pai-Senhor! Porque eles, eles cada vez mais não sabem o que fazem.

Nem é finados. Nem é coberta dos mortos. Mas os mortos-vivos vagueiam à roda, de plantão. Desejosos dos cérebros que não têm, arrastam-se como zumbis da moda. E golfam. Golfam dejetos apodrecidos em forma de palavras soltas a mitigar ouvidos sãos. Não. Não é a festa dos mortos mexicana. Nem é a páscoa do Senhor. Nem é o Natal – que talvez nem o tenhamos mais. É a reza do bem contra o mal – contra o mal que empana aos olhos e desperta os maus espíritos dos que até então peregrinavam serenos que contidos.

Que tempos. Que tempo. Tempo de oração e contrição pelas almas dos mortos-vivos que temos e vemos, aos bandos, pelas ruas.

Ó, Deus. Ó, almas cruas. Às almas, às almas, rezemos.

 


 

 

Alexandre Bragion é editor do Diário do Engenho.

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