Mistério de Natal. Ou: quem tem medo de Papai Noel?

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Natal é época de mistérios? Daquela vez foi. Que o tempo passa e as coisas viram coisas na mente das gentes. No antes, na época, os enfeites natalinos não se viam assim na exorbitância do seres – como no de hoje. Uma luzinha aqui, outra também – e o resto, quando não se queimava num fim, às vezes também não era de jeito. O negócio, então, era enrolar num tufo de papelão o pisca que não piscava e guardar no porão pro ano que viria. Daí, no ano seguinte, era fazer um novo teste e torcer para o tempo ter dado no jeito as magias de um conserto  – com “s” mesmo – de Natal. No porão, o pisca que não piscava aguardaria o ano todo ao lado daquela velha árvore herdada de natais anteriores – quase torta, quase morta de tão pelada. A abundância dos penduricários não se fartava tanto nos Natais de outrora.

Boneco de Papai Noel, então, era coisa que pouco se via. Pois o mundo oriental do comércio piracicabano ainda não frutificara nas ruas do Centro. Lojas com bons velhinhos só se fossem com velhinhos em carne, osso e barriga de espuma. Que esse bonecões automáticos que no contemporâneo tocam saxofone era coisa impensada no nunca visto nem sonhado. Mas no outro lado da vida, num nem sei como, na escola que eu trabalhava havia um bonecão de Papai Noel feito à mão pela gurizada numa aula de educação artística. Era um boneco bonito de tão feito. Alto. Quase dois metros. Magro de tanta falta de isopor e trapos. A cara de um papel machê que não se mexe – maquiada quase que obscenamente. E o bom velhinho dos infernos ficava sentado numa carteira escolar – colocada pelos alunos no corredor de entrada da escola – para supostamente enfeitar o enfeitável que possível. Que assim todos queriam. Ou quase todos.

Mas havia um qualquer coisa de fenômeno naquela criatura natalina desengonçada que – em sua primeira noite de serviço – como se ninguém soubesse nem explicasse, se sumira dali da frente da escola, deixando a carteira vazia. No pela manhã, quando o vigia da matina chegou, o lugar do bom velhinho era ainda um vacuoso cruz-credo. Onde estaria o boneco do demo? Procura que procura, procura que procura. Num de repente, alguém gritou um “achei” meio sem vontade, meio apavorado. O velhinho se metera no banheiro dos funcionários – e fora encontrado sentado como um rei no trono dos justos e dos injustos. Terror e mistério. A criançada gritava. E ninguém se sabia como explicar aquilo. Que o Papai Noel, em noite do advento, precisou usar o vaso. E ali ficara, no até do dia seguinte. E a criançada gritando que gritava.

A diretora fez-se regoda-religiosa, ousou chamar um padre – que não veio. A professora de religião fez palestra sobre o Natal e seus eventos sobrenaturais – o que ninguém, então, imaginava que seria seu tema de domínio e conhecimento. Discutiu-se em conselho emergente e emergecial o retorno ou não de Noel a seu posto de enfeite natalino na entrada da escola. Os notáveis do conselho aconselharam, como de costume. E Noel foi recolocado em sua carteira, no corredor de entrada. Como no dantes. E ali ele ficara e dera o seu expediente. Fechada a escola pelo vigia da noite, todos foram um embora num ir de espichar olhos – a ver se o velhinho se insurgia dali num de novo outravez. Mas nada. O pobre nem mexia.

Só que, no dia seguinte que viria, lá estava o vazio refeito, repleto de sumiço natalino. Novamente, Papai Noel arribara dali. Gritos e berros da criançada. Novo procura que procura. E Papai foi rapidamente reachado no banheiro, confortavelmente instalado em seu trono de louça. Diante da insistência do inexplicado inexplicável, o conselho deu avessas: achou por bem não voltar o velhinho em seu posto de origem. Seria melhor evitar ditos e desditos de superstição. A diretora acatou. A criançada também. A professora de artes guardou o velhinho no porão, dentro de uma caixa amarrada, a ser aberta só na véspera da Páscoa – quando o velhinho, convertido em Judas, deveria ser malhado com todas as honras da casa. Pé de pato, mangalô três vezes.

Mistério de Natal. Raiz e origem mal só se soube anos depois. Quando seu Cordeiro, o vigia da noite, revelou em descuido, numa dessas conversas desavisadas, que morria de medo do boneco – e, todas as noites, quando chegava para trabalhar, colocava Papai Noel no banheiro, para que ele não ficasse ali na frente, cara a cara com ele, a madrugada toda. No pela manhã, se esquecia de lembrar de  tirar o Noel da privada – onde era achado pelo vigia da manhã (terço na mão, olhos em prece e expressão de “Ó, Senhor meu Deus” na cara). Que o bonecão “mais parecia o coisaruim, o tinhoso” – desabafou seu Cordeiro, aliviado por ter relevado seu segredo – e feliz de ter sido socorrido, na época, pela força do populacho no sábado de Aleluia. Ave!

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Alê Bragion é editor do Diário do Engenho  



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