Primeiro grande protesto popular no Brasil do Obscurantismo: E agora?

Primeiro grande protesto popular no Brasil do Obscurantismo: E agora?
 
por Jean Goldenbaum

Sim, foi lindo o protesto nacional. Cerca de duas milhões de pessoas, em centenas de cidades do país, do Oiapoque ao Chuí. Com faixas, discursos e gritos. Sem violência nem depredação. Cada um que esteve presente deve ser parabenizado. Mas atingimos algo? O que atingimos? Bem, amigos, começamos.O que tenho em mente hoje, dia seguinte à primeira manifestação massiva contra o desgoverno que tomou o país, é acima de tudo que o próximo protesto deve vir. Precisa vir. E rapidamente. E espero que seja ainda maior. Infelizmente é necessário e a cada dia que passa se faz ainda mais. Até quando? Até que o pesadelo acabe. Até que os inimigos desistam de seu plano de acabar com o poder intelectual do povo, até que parem de perseguir os que pensam, até que retornem para as obscuras cavernas medievais de onde saíram com todo o poder para destruir o já muito árduo caminhar brasileiro.

Quem acompanha meus artigos, sabe que não resido no Brasil, mas sim na Alemanha. Ontem não me desprendi do celular, através do qual com alegria recebi ao longo do dia dezenas de fotos e vídeos da maravilhosa ação popular. Amigos e companheiros de luta me enviaram imagens de diversas cidades e estados do país. Imagens coloridas, imagens da diversidade, imagens humanas.

É assim que nós – a parte do Brasil que não votou no ódio – devemos agir. Ir às ruas de maneira inteligente e pacífica. Só com ações, mostrando que pararemos quando e como quisermos, até que a plena Democracia se restaure e os Direitos Humanos deixem de ser corrompidos.

Sim, queremos mais destas grandes manifestações, cada vez mais afirmativas. Pedindo impeachment. Exigindo respeito não somente aos estudantes, mas também aos índios, à comunidade LGBT+, aos pobres, aos oprimidos. Até que a alma de Marielle descanse em paz, até que toda a sujeira dos “homens da lei” seja interrompida, até que as armas sejam extintas e não adoradas. Até que tenhamos como líder nacional um homem decente, que não fundamente todas as suas ações em desrespeito e inverdades.

Inclusive, não podemos deixar de lembrar que o tal Coiso (incrível como este codinome não deixa de funcionar e ainda nos impede de receber um processo, não?) fugiu rapidamente para os EUA, enquanto o asfalto das ruas pegava fogo no Brasil. Provavelmente queria meter-se sob as asas de seu Big Daddy Trump (Big Brother é coisa do passado), procurando conforto no ninho da ultra-direita. Enfim, aparentemente o republicano não estava a fim de receber o caçula que, depois de ser escorraçado de Nova Iorque – thanks again, Mr. de Blasio –, encontrou somente espaço nas partes conservadoras do estado do Texas… E de lá, aproveitou para enviar ao Brasil mais uma de suas boçais declarações, insultando de forma pueril o povo que saiu às ruas e mais uma vez provando sua pequenez.

Quando será a próxima manifestação, companheiros? Infelizmente já é necessário. Até que consigamos trazer a turma do “votei nulo porque odeio o PT” para o lado da Resistência, e talvez até alguns eleitores do presidente que talvez tenham votado nele não por mal, mas por pura ignorância, e que estejam conscientizando-se aos poucos… Quanto aos maus, estes não terão conserto mesmo. Que se tornem então minoria.

Quando de fato pararmos o país todos os meses com greves nacionais, quem sabe aí então teremos alguma chance de salvarmos o Brasil da ameaça neofascista – que já caminha a passos largos e está muito mais estruturada do que alguns podem imaginar.

Um amigo me perguntou se estou esperançoso. Respondi que, infelizmente, não. Mas acrescentei que de fato esta paralisação nacional com quatro meses e meio de governo foi um valioso primeiro passo. Não podemos deixar que o segundo tarde. Reitero: sempre sem violência, sem depredação, com inteligência e sempre ao lado da verdade.

Concluo esta breve reflexão com as palavras de um de meus pensadores favoritos, o sociólogo e psicólogo judeu-alemão Erich Fromm (1900-1980), que em seu livro Sobre a desobediência e outros ensaios, nos traz a respeito da liberdade, da desobediência a lideranças opressoras e de nossa escolha em sermos legítimos e ativos acerca de nossas convicções, rejeitando a opressão vinda de cima:

“De fato, a liberdade e a capacidade de desobediência são inseparáveis. (…) Obediência a uma pessoa, instituição ou poder (obediência heterônoma) é submissão; implica a abdicação da minha autonomia e a aceitação de uma vontade ou julgamento do outro no lugar do meu. Obediência à minha própria razão ou convicção (obediência autônoma) não é um ato de submissão, mas de afirmação. Minha convicção e meu julgamento, se forem de fato meus, são parte de mim. Se eu os seguir, ao invés do julgamento dos outros, estarei sendo eu mesmo.”

Não abdicaremos de nossa autonomia. Seguiremos unidos e de forma afirmativa nesta longa e árdua luta pelo Brasil que merecemos. Sempre em frente e até a próxima.

Dr. Jean Goldenbaum é compositor e musicólogo, professor do Centro Europeu de Música Judaica da Universidade de Música, Teatro e Mídia de Hannover, Alemanha. Ativista social e político, faz parte do grupo ‘Resistência Democrática Judaica’ e é um dos coordenadores do ‘Observatório Judaico de Direitos Humanos do Brasil’. www.jeangoldenbaum.com

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2 Comments on "Primeiro grande protesto popular no Brasil do Obscurantismo: E agora?"

  1. marisahsoliveira | 16 de maio de 2019 at 11:20 | Responder

    Parabéns! Fez bem ao coração a manifestação de ontem!

  2. Bela análise, Jean! Que venham mais (mobilizações e artigos) e que, num futuro breve e luminoso, tanto aquelas quanto estes falem de um Brasil para todas e todos, livre, progressista e acolhedor.

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