Pássaros Urbanos

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A cidade cresceu e coisas próprias da cidade pequena desapareceram nessa imensa selva de concreto. O triste em tudo isto é que, com o crescimento da cidade, também foi aumentando nas pessoas a perda da percepção do que é belo na natureza.

Nos dias de hoje, poucos se interessam em ver o por do sol ou a beleza do nosso rio Piracicaba ao amanhecer. Todos correm atropeladamente e nem sentem o passar das horas e dos dias, e só percebem a chuva quando ela é demais ou a falta dela quando o dia e as semanas estão muito quentes. Mas o que levamos nós de nossa curta passagem a não ser o milagre e a beleza da natureza da grande magia que é a vida?

Antes, em todos os terrenos baldios espalhados pela cidade, existiam pés de frutas e principalmente pés de mamões, que as crianças utilizavam para suas inocentes brincadeiras. A cidade era povoada de pássaros que voavam e faziam seus ninhos nos jardins, nos tetos das igrejas, como as andorinhas que nos finais de tarde voavam em bandos formando desenhos nos céu.

Nos postes e nos fios de energia elétrica era comum o pouso dos pardais e tico-ticos que às vezes, por serem tantos, eram hostilizados verbalmente por pessoas que diziam que essas aves eram pragas que infestavam a cidade. O pardal é de origem do Oriente Médio e chegou às Américas por volta de 1850 – já o tico-tico é um dos pássaros mais conhecido e estimados do país, e o seu nome é de origem tupi. Essas duas aves são espécies comuns em áreas urbanas e muitas pessoas as confundem, apesar de terem diferenças facilmente percebíveis.

Pois bem, o tempo passou, a cidade agigantou-se e as pessoas apresaram seus passos e suas manias, sendo que a maioria olha muito mais para baixo, em seus celulares, que para cima – e, às aves, a cada dia, estão rareando mais na percepção das pessoas e nos lugares onde habitam. Sei que muitos ainda ouvem em seus devaneios o canto do Bem-te-vi, do Sanhaçu Cinzento, do Quero-Quero, aquele que às vezes fazem sua presença em jogos de futebol, como que dizendo: Ei! Atenção! Aqui e Agora! Nós ainda estamos presentes na urbe.

Felizmente eu consigo ouvir o piar do pardal e do tico-tico numa árvore ou no telhado de uma casa antiga. Creio que este exercício de percepção ainda vale a pena ser exercido, pois nos ajuda nos conectarmos com o belo e com a poesia natural da cidade.

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João Carlos Teixeira Gonçalves é professor nos cursos de Comunicação da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP).                               



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