Os Estudantes, as Ruas e os Ventos da Mudança

Dois fatos demostram claramente que as políticas definidas em Brasília têm um efeito direto e real na vida cotidiana. O primeiro é o assassinato covarde, com um tiro pelas costas, de um jovem na periferia de Piracicaba, ocorrido no início de maio deste ano. O discurso belicoso de que a polícia deve ter autonomia para abater cidadãos aguça o imaginário de violência, dilacerando qualquer resquício de direito e justiça. O segundo consiste na decisão de se cortar investimentos das Universidades e Institutos Federais. O resultado será o sucateamento e a inviabilização da educação pública, da pesquisa e extensão acadêmicas. A sociedade precisa reagir e se posicionar diante de ambos os eventos.No que toca o campo da educação, o movimento de reação já se iniciou, apontando, talvez, para uma nova fase da luta política.

Quando os jovens assumem o protagonismo da história, rupturas e transformações geralmente acontecem. São fartos os exemplos que nos permitam conceber o vigor juvenil como símbolo de criatividade, ousadia, impetuosidade e coragem.  Longe de serem idiotas úteis, os jovens, com toda a irreverência, podem fazer a roda da fortuna girar, desestabilizando os poderes constituídos. Empunhando a bandeira da liberdade, a juventude suscita, sobretudo, esperança.

Em um cenário político tomado por débeis compreensões fundamentalistas, a elevarem o atual mandatário à condição mítica de ungido, o movimento dos estudantes em defesa da educação desponta como um lampejo de lucidez. Diante de posturas empedernidas, avessas a qualquer pensamento mais profundo e crítico, a juventude ocupa as ruas, reivindicando o direito fundamental à educação de qualidade, gratuita e pública.

As propostas políticas e econômicas implementadas pelo atual governo se colocam em oposição a um projeto de futuro, destruindo as perspectivas e possibilidades para a população jovem. O contingenciamento de recursos para a educação e a reforma da previdência configuram-se, respectivamente, como ataque ao presente, impedindo o jovem de se qualificar, e, como anulação do futuro, relegando a população ao total desamparo social.

O reconhecimento da diversidade humana e cultural como um valor; a superação de atitudes marcadamente machistas e preconceituosas; o combate ao racismo; o fomento a uma cultura de não violência; a perspectiva do feminismo, recolocando a igualdade como princípio relacional; a defesa das causas ambientais, na propositura de uma ecologia profunda, apontando para a sustentabilidade; o respeito e apreço pela condição afetiva e sexual do outro, na abertura para as diversas expressões de amor; as sensíveis reflexões em torno do vegetarianismo e do veganismo, buscando o equilíbrio alimentar; as ponderações em alusão a um economia solidária, no compartilhamento dos bens produzidos. Todas essas grandes pautas, assumidas e representadas pelo jeito de viver da juventude, forjando uma sociabilidade alicerçada na alteridade, são constantemente confrontadas, negadas e violentamente combatidas por meio de pronunciamentos, gestos e ações por parte do grupo que está no poder.

A força social e de mobilização dos estudantes pode ser o contraponto decisivo, em um contexto no qual a política passou a ser sinônimo de manipulação por fakenews e enigmáticas mensagens via Twitter e Whatsapp. A juventude, ao tomar democraticamente as ruas, faz política no sentido mais elevado, colocando em movimento os ventos da mudança. Em uma inversão de papeis sociais, agora são os jovens estudantes que chamam os mais velhos à razão. É preciso ouvir a voz entusiasmada dessa juventude, bradando por democracia, direitos e justiça social. Com os jovens a sociedade saiu do imobilismo. Vamos juntos, sempre com esperança.

(foto: Wanderley Garcia)


 

Adelino Francisco de Oliveira é filósofo, doutor em filosofia pela Universidade de Braga, professor no Instituto Federal campus Piracicaba e presidente do conselho editorial do Diário do Engenho.

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