Oração desesperada a Sartre.

 

Ai, Sartre! Ai, Sartre! Estás no céu? Por que, então, nos revelaste a nossa eterna condenação de sermos livres? Por que nos deste, em verdade, a compreensão de que nossa liberdade pode transmutar-se – por meio de mera ação – em condenação ou maldade? Ai, Sartre de Deus! Quem, senão tu, nos ensinou a ver brotar na consciência a percepção de que a liberdade é risco do qual não temos como escapar? (Risco porque – como nos ensinaste – ao nos sabermos livres assumimos as rédeas de nossas ações e de nosso atuar).

Santificado Sartre. É fato que nas sendas da existência nos exercitamos no jardim das relações humanas. É fato que atuamos na defesa de nossas ideias, na realização de nossas vontades e na expectativa de erigirmos sobre o outro o castelo de nossas convicções. Todavia, Sartre, tu é quem nos mostra que as catedrais de nosso existir escondem também as trincas de nosso próprio templo – frutos de nosso descompasso com o outro – ó, mestre.

É tu que nos mostra que de nossos choques com a liberdade do outro vemos nesse outro nosso inferno – pois disseste: “o inferno são os outros.” É tu que nos mostra que diante do outro oscilamos e vemos também o outro oscilar entre o humano e o desumano. E que na peleja pela imposição de nossas certezas, suprimida nossa capacidade de auto-avaliação, desancamos o outro (ou somos desancados por ele) e intentamos sufocá-lo com a matéria de nossas verdades.

Sartre, confessamos. Matamos ou morremos por nossas verdades. Afastados do humano, oscilamos entre o diabólico e o divino, entre o bem e o mal, sem nos darmos conta de que tais quedas ou elevações nos coisificam (como tu mesmo diria). E como apontaste, talvez só aí, nesse momento de coisificação, sentimos por causa do outro (e por burrice nossa) o lado B da vida. E vos pedimos: perdão.

Sabemos que não faltam ao mundo carrascos da liberdade do outro e que sobram fantasmas livres. Infernos particulares do outro, avolumam-se na crosta terrestre vampiros ávidos que sedentos por sangue e desgraça. Juízes de suas próprias causas, voam eles num círculo quase inquebrantável de miséria intelectual e de ausência de sentimentos – no qual apenas a manutenção de sua própria moral raivosa, de seus ideais, de suas posições lhes interessam.

Ajuda-nos então, pai Sartre, a sabermos – porém – que a liberdade não é apenas o dizer ou o fazer o que se quer porque se é livre. Por que, se assim fosse, estaríamos legitimando o ódio e a maldade. Afinal – caro mestre – somos livres para fazermos o mal? Somos livres para cometermos injustiças? Somos livres para desferirmos palavras de ódio? Sabemos que sim, somos. Mas sabemos também – como nos mostraste – que a liberdade deve ter a força que não desumaniza nunca.

Inspira-nos, por fim – feio anjo-ateu –, neste tempo nefasto, a jamais esquecermos, na prática diária da liberdade, do que Cervantes, em Dom Quixote, escreveu: “La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos”.

Amém.

 

(Crônica publicada no Jornal de Piracicaba de 10 de outubro de 2018).

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Alexandre Bragion é editor do Diário do Engenho. 

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