O riso sardônico da (in)Justiça

A foto que ilustra a capa da Folha de São Paulo deste último sábado(10) é capaz, como poucas, de registrar imageticamente a vitória da desfaçatez e da ignomínia sobre um país que moralmente agoniza. O riso largo e majestático do ministro Gilmar Mendes – dado em contexto específico do qual desconhecemos, é fato – tem o poder, todavia, de enojar e nausear a quem minimamente ainda acredita na justiça brasileira e nas instituições dela decorrentes.

De que ria, afinal, o ministro Gilmar? Dos argumentos e provas do relator do processo – ministro Herman Benjamin? Ria por saber que toda a imprensa nacional já noticiava qual seria o voto de cada ministro antes mesmo do julgamento começar? Ria do imenso esforço do ministro Benjamin em expor a teia mafiosa que enredou e enreda partidos, chapas eleitas e derrotadas e envolve políticos das principais agremiações partidárias  – absolvidos todos pelo voto de “desempate” do ministro no desfecho do processo? Ria Gilmar dos dribles argumentativos e falaciosos que impetrava em defesa de uma nefasta organização apontada como criminosa pelo ministro relator?

Ria o ministro Gilmar Mendes por desconsiderar provas cabais? Ria do poder de decidir, fazer e desfazer a seu bel prazer? Ria ao ver que, para absolver o amigo Temer – com quem costuma viajar, jantar e dividir voos em aeronaves oficiais -, foi obrigado a absolver também a ex-presidente Dilma (cuja candidatura e posterior eleição, democrática e popular, eram justamente o alvo no qual o ministro mirava na abertura do referido processo)? Ria do povo, da imensa ignorância popular que colocou no poder um presidente que, em apenas um ano no cargo, foi pego em flagrantes delitos que os expuseram ao ridículo internacional e tornam sua permanência no cargo um ultraje à nação?

Sob a égide do ridículo, o riso sardônico do ministro é também o anátema de um poder judiciário falido e despótico – repleto de procuradores que acusam sem provas, de juízes midiáticos e partidários, de acusadores que se valem de citações religiosas e crenças variadas na defesa de suas teses, de julgamentos cênicos e kafkianos nos quais todos já sabem previamente o veredito e a sentença (mesmo que se desconheça neles a acusação). Conduzidos a partir de influências políticas, de proximidades e interesses pessoais, nossos tribunais perderam definitivamente o medo de – mesmo que supostamente – entrarem para a história como instrumentos político-ideológicos aparelhados para atuar em benefício dos poderosos, desse ou daquele partido ou político.

O riso, na boca da in(Justiça) brasileira, já não é mais o melhor remédio.

 



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