O assassinato de Marielle e sua “leitura” pela “imprensa”

 

Mais uma vez, a vênus platinada que orbita sobre a existência dos brasileiros continua – e não poderia seria diferente – “interpretando” os fatos da vida pública nacional ao sabor de suas ideologias e comprometimentos políticos. A “grande imprensa”, ou seria melhor dizer “o Grande Irmão” ( a la George Orwell), outra vez propõe uma leitura no mínimo duvidosa sobre o crime bárbaro que ceifou a vida da vereadora do PSOL Marielle Franco.

Para a “grande irmã global”, o assassinato brutal da vereadora e de seu motorista se inclui no rol dos crimes comuns que assolam o país e, em especial, o Rio de Janeiro. Nesse sentido, comentaristas platinados, no rádio e na televisão, chegaram a dizer que o assassinato da vereadora é prova de que a intervenção militar no Rio é necessária. Também há pouco, em um dos jornais da tarde, outros jornalista lamentaram a morte da vereadora e a elencaram como “mais uma” morte num Rio de Janeiro tão violento. De maneira geral, e ao que parece, o entendimento do crime contra Marielle como sendo um crime que possa ser “político” passa ainda – até o momento – suavizado (ainda nem mesmo cogitado pela “grande irmã”). Também de maneira geral, a “imprensa” nacional parece pouco cogitar que a “máfia” que possivelmente pôs fim a vida da vereadora – ao que tudo parece indicar – talvez (ressalte-se esse talvez) tenha ampla aceitação e mesmo entrada no plano da política nacional (sendo que muitos desse “cenário político” sabidamente vivem do conluio com milícias e traficantes).

Ora. É evidente que ainda é cedo demais para afirmar qualquer coisa sobre os mandantes e executores desse hediondo crime. Todavia, parece também bastante óbvio que não se trata de um assassinato comum. Ao que indicam as evidências primeiras, o crime tem todos os indícios de execução – fato que, a priori, já o exclui dos demais crimes que se avolumam no Rio diariamente.

Marielle Franco era uma mulher combativa. Atuante. Sua votação expressiva indica que as causas pelas quais ela lutava são causas fundamentais para a população carente. E que causas eram essas? Muitas – e todas ligadas aos direitos humanos (passando pela luta em prol das questões de gênero, do feminismo, das questões da negritude). Mais do que isso, Marielle denunciava o genocídio vivido pela população pobre e negra das comunidades do Rio – genocídio esse apontado por ela, em especial, como praticado por quem deveria fazer cumprir a lei. Na mesma pauta, Marielle era a relatora – na câmara do Rio – da comissão que analisava a ação dos militares durante a intervenção no Rio.

Por tudo isso, incluir esse horrendo crime no rol dos demais crimes no Rio parece, lamentavelmente, uma tentativa de despolitizar a questão – e de usar esse crime, cruelmente, como argumento para intervenção militar no estado.

Marielle era o “novo” na política. Sua posição política e sua militância na luta pelos direitos humanos, exemplar. Por isso, Marielle Franco – e as investigações talvez levem a se provar isso – pode ter justamente sido morta por quem há muito namora com a “velha” política espalhada pelo Rio e pelo país.

Ver a velha política e os velhos políticos, na TV, lamentando a morte da vereadora é de causar náuseas.

Suavizar esse crime, transformando-o em coisa comum, também.

 

 

 

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