“Na Escola” – crônica de Alê Bragion

E num é verdade que pé que dá fruta é o que mais leva pedrada? Pois foi zunindo que nem zangão em laranja doce que a mulherzinha vespou-se de permeio pelo portão da escola – rasgando igual tiro a sala do diretor. E, pela beiçada que dera no homem, logo se via que vinha cuspindo fogo: bicho feio que só vendo.

 – Onde já se viu? O senhor vai ter de tomar providências!

Vestidinha de cor sim cor não, num cai num cai em cima duns saltos, quem diria que era capaz de por fogo pelas ventas assim, na graciosidade? Dedo em riste no nariz, versada em vocabulário de almanaque de farmácia, nem doutora nem letrada – só costurando por dentro o rei na barriga (e quando barriga tá cheia, laranja tem bicho).

 – Como pode uma professora escrever um absurdo desses?

O diretor, num até então, só sapiava a dona de fora – chiquê cheio de sensaboria da cidade grande, se bancando toda em intelectual reformada: inquisidora da correção da língua dos gentios do sertão que agora habitava.

 – O senhor vai ter de tomar providências!

Gastando de tanto olhar, o homem resolveu entrar na demanda. Mais por não se fazer de rogado do que por aprendizado de questão – que cachorro velho não decora truque novo.

 – E o que foi que aconteceu, minha senhora?

 A mulher esticou a língua.

 – Foi a professora de meu filho! – disse no azedo idioma do correto se dizer das frases. 

Q´é que tem? – resgumou o homem na prosa telúrica dos bárbaros das campinas.

– Pois ela me escreveu, dizendo que o meu menino – ontem – golfou na sala de aula!

– Ô, ô?

– Veja o senhor!

– Ê tá errado?

– Golfar? Onde já se viu…

– É coisa ruim, é?

– E o meu filho por acaso é caipira para Golfar?

– E só caipira é que golfa, dona?

– Onde já se viu, meu senhor! O senhor vai ter de tomar providências!

Injuriado, o homem não teve dúvidas: mandou chamar a professora – enquanto, na estante, arfava vermelho o pai dos burros.

 – A senhora escreveu, mesmo, a palavra golfar no caderno desse menino? – perguntou o diretor, num muque só.

 A professora saiu de zagueira.

 – Di jeito maneira, seu diretor. Num escrevi golfar coisa nenhuma. Mesmo porque golfar num existe!

 Dicionário na mão, o mestre abestou-se em espanto:

 – Não existe? Como assim não existe?  E o que foi que a senhora escreveu então, hein?

 A professora deu de canela.

 – Escrevi gorfá! Com r. Direitinho como deve ser!

– Jure? – pasmou o homem.

– Juro! Ó aqui o caderno do piá! – apontou a professora.

A mãe do rebento envesgou os olhos  – surda-muda perdida no pasto sem fim da gramática. A professora deu-se por respondida – que pra muito sono toda a cama é boa. O diretor, esse foi quem azedou a coisa. E dando com os cascos num coice só, correu com as duas dali – que passarinho que anda com morcego acorda de ponta-cabeça.

– Rapa as duas daqui, e é agora! – cuspiu forte o homem.

No todo da coisa, já fora e longe do rapa, a professora ainda tentou desfazer o malfeito desentendido:

 – A senhora adesculpe, dona. Mas o piá, ontem, gorfô memo.

E no arremate certeiro:

– Mas acho que num há de sê nada.  Acho que foi só bucho virado, memo…

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O Autor:

Editor do “Diário do Engenho,” Alê Bragion é pesquisador dos estudos literários.

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