“Minha Cidade nos Olhos de um Velho” – crônica de Cíntia Ferreira

Sentado num ponto de ônibus,  estava o velho de cabeça baixa e olhos fechados. Vestia roupa social, do tipo ainda que usava quando jovem, tendo acrescentado a ela um jovial boné azul – para proteger a calva do sol que ardia.

O velho esperava, mas não um ônibus ou taxi. Esperava alguém – um qualquer que pudesse ouvi-lo. E, quando me aproximei, foi logo dizendo:

– Moça, sabia que antes tudo isso aqui era cana?

-Não sabia não, respondi. Olhei pro nada, não sei por que motivo.

– Eu cortei cana por tudo aqui, disse o velho,  mas isso faz tempo. Foi trinta “anos fazeno a mesma.” Daqui te lá na frente, onde “nem dá pra olha.”

Olhei pro velho, pensando não sei em que. Tirei o fone do ouvido que tocava um rock qualquer. Pensei que talvez ouvi-lo por um minuto não me custaria quase nada.

Então ele me falou de seu trabalho. Lamentou estar aposentado (e, quanto isso, olhava pra longe todo o tempo – e esse movimento quase lhe fechava os olhos enrugados).

Penso eu que imagens  se formavam novamente em sua lembrança. Que ele se via jovem e forte, cercado pelos companheiros de trabalho, vestindo as roupas próprias pra o lido com a terra. Penso que ele sentia o doce da memória – e o olhar marejou os trinta anos de história que nos envolviam naquele ponto de ônibus.

Os carros passando e as crianças jogando futebol no campinhi em frente ao ponto de ônibus foram ficando nublados e entorpecidps pela vida do velho. Acho que penetrei na lembrança dele, e quase que podia vê-lo, jovem e desperto, com o rosto suado e o corpo encurvado construindo também a Iracemápolis em que cresci.

Iracemápolis, em tupi a cidade dos lábios de mel. Lábios esses, adoçados com o açúcar da cana que a cerca. No doce da história, um gosto leve de sal. Desconfio, hoje, que deva ser do suor de centenas de trabalhadores que, como o velho, passaram dias e madrugadas também por entre os canaviais – se ferindo no facão, almoçando as dez da manhã, com a fome forçada pelo esforço pesado, vestindo roupas compridas para se proteger de animais e do sol.

57 anos completará a minha cidade – e tantos velhos, nesse dia 03 de maio, se sentarão para contar suas histórias de trabalho e de amor, vivenciadas não só nos canaviais mas também no coreto da praça central e no comércio da pequena “lábios de mel.”

Voltando à conversa do ponto, posso dizer que o velho compartilhou comigo sua vida e seu desapontamento de velho dispensado do trabalho – e que vê nas ruas muito mais do que asfalto. Vê ali os largos canaviais aos quais dedicou boa parte do que era e do que é.

Quando o ônibus chegou, me despedi e entrei. O velho me disse um “vá com Deus,” e se levantou. Saiu andando pela avenida cheia de ypês amarelos, flor tradicional do município.

No dia seguinte, me dirigi ao ponto como de costume. No caminho, imagina que ele novamente estaria lá.  Me enganei. Penso que, naquele dia,  já tinha ele cumprido o seu papel e sua vontade.

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A autora:

Cíntia Ferreira é estudante do último ano de jornalistmo, no ISCA Faculdades, em Limeira.

4 thoughts on ““Minha Cidade nos Olhos de um Velho” – crônica de Cíntia Ferreira

  1. Gostei muito do texto. Você
    escreve muito bem, Cíntia!
    E que todos possam parabenizar
    a cidade de Iracemápolis 😀

    Beijo, querida.

    Natalia Campos
    1° Semestre de Jornalismo
    no ISCA Faculdades em Limeira/SP

  2. Esta crônica fez-me lembrar da época em que ficava sentado em um banquinho de madeira ouvindo meu Avo contando suas histórias, de como tudo mudou. Graças a Deus que fiz como você, aproveitei cada segundo de cada conversa.
    Muito belo seu texto
    Cintia ferreira
    Parabéns.
    Beijos

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