Mediocridade e Fantasma do Fascismo.

 

Um tipo de homem que não quer dar razões nem ter razão, mas que se mostra, simplesmente, resoluto a impor suas opiniões.

José Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

 

A civilização é um projeto em aberto, que deve ser assumido e renovado pelo conjunto da sociedade, correndo-se o sério risco de um retorno trágico e catastrófico à barbárie. Há sempre uma possibilidade real de que toda arquitetura civilizacional seja colocada a baixo, por forças obscuras, sombrias, que podem emergir, em momentos de crise e fragilidade social.

No atual momento histórico o que parece colocar em questão à civilização é a projeção de interesses econômicos sombrios, implementados por determinados grupos, que detém e concentram quase que a totalidade da riqueza circulante. Em uma perversa dinâmica de apropriação e expropriação dos bens produzidos pelo conjunto da humanidade, desponta uma classe hegemônica sádica, a disseminar corrupção e iniquidade, configurando um quadro social marcado por uma abissal desigualdade. Em uma perspectiva mesquinha e cínica, tais grupos são capazes de promover o ocaso da civilização, apenas para perpetuarem e ampliarem o status que já desfrutam.

Decorrente dessa estrutura socioeconômica iníqua, a decadência civilizacional acaba por se expressar na ascensão de um tipo de pensamento acrítico, incapaz de compreender a existência e a própria cultura numa condição complexa. Ganham espaço e visibilidade, especialmente impulsionados pelo advento da internet e das redes sociais, a vulgaridade, a boçalidade e o senso comum, a definirem um modo de existência e de compreensão política. Emerge, no contemporâneo, um sujeito cheio de opiniões e pontos de vistas, a explicitar olhares estreitos e carentes de fundamentação sobre os mais diversos temas. Em suas análises sobram homofobia, xenofobia, preconceito étnico racial, machismo, sexismo, repúdio a expressões artísticas, apologia à confessionalidade do ensino religioso em escolas públicas, ao mesmo tempo em que se advoga uma pseudo neutralidade na educação etc.

Torna-se importante indagar sobre o rosto desse personagem massificado. É preciso ponderar que este se constitui como um sujeito de múltiplas faces, que se manifesta em todos os estratos sociais. Ao mesmo tempo em que pode ser encontrado junto a camadas populares, está também presente nos seguimentos mais abastados da sociedade. Na verdade, deparamo-nos com a reprodução alienada e ideológica de uma mentalidade e consciência de mundo, decorrentes de uma visão fragmentada e distorcida da realidade. A existência e a vida em sociedade, sem nenhuma confluência mais crítica e problematizadora, passam a ser naturalizadas na fruição do consumo, na busca pelo máximo conforto, na futilidade relacional e na competição mercadológica, como mecanismo de afirmação identitária. Tudo se coloca no nível da mais imediata e efêmera superficialidade, travestida, no entanto, de sofisticação e razoabilidade. O cerne da leitura de mundo desse sujeito massificado, a compor uma espécie de consciência do senso comum, é o fundamentalismo. Não somente o fundamentalismo religioso (que é, sem dúvida, o mais danoso e notório), mas também o político, o econômico, o cultural. Todo tipo de fundamentalismo, a vicejar como erva daninha, tomando corações e mentes.

Talvez a consequência mais direta da ação dos sujeitos massificados seja o despontar de um neofascismo, como expressão de um mundo avesso a qualquer possibilidade de democracia e intolerante com outras formas de pensamento e de arranjo existencial. A culminância de um ambiente cultural a fomentar o retorno de perspectivas fascistas, calcadas na mais sólida e contumaz ignorância acerca dos desdobramentos da própria história, pode implodir com o arcabouço civilizacional. Mas o fascismo significa, sobretudo, a derrocada da civilização e a vitória da barbárie, na forma de sistemas totalitários, a suplantarem qualquer noção de direitos humanos, de justiça social e mesmo de liberdade. Isso tudo é lição da história – quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça.

Mas todas essas questões acabam por passar ao largo do universo de representações de um sujeito massificado, tomado pela mais notória mediocridade. A futilidade das preocupações cotidianas não o permite discernir e contemporizar sobre as possibilidades que a existência singular e as relações em sociedade podem alcançar. Concebendo o mundo a partir de definições estáticas, o sujeito massificado, em suas percepções medíocres, acaba por semear cizânia, promovendo segregações ao perseguir, difamar e repudiar tudo que se apresenta como diferente. É a afirmação da barbárie e o colapso fatal da civilização.

Neste cenário, a educação assume uma tarefa contínua fundamental, de reforçar e consolidar os princípios civilizacionais. É preciso que, no processo formativo, esteja viva a memória de tudo o que já foi suplantado ao longo da trajetória humana. Que as gerações de hoje contemplem a civilização, os avanços culturais, como um grande e precioso legado, que deve, dialeticamente, ser preservado e ampliado, de modo a aprofundar os complexos horizontes da existência humana. O conhecimento histórico desvela-se como imprescindível para se conservar e se avançar civilizacionalmente, na medida em que pode evitar a reedição de erros que marcaram o passado. A ignorância histórica não deixa de se constituir como um mal terrível, que pode colocar por terra toda uma construção cultural. Na mitologia grega o rio Léthê – que fluía nas profundezas inférteis do Hades – provocava, em quem bebesse de suas águas, a aflição do total esquecimento. Cabe à educação, em um sentido amplo, promover a Alétheia, a compreensão da verdade, o desvelamento da realidade, não deixando ninguém alheio aos princípios basilares da civilização, articulando um vasto movimento de democracia cultural.

O movimento de reconstrução civilizacional – negando e suplantando todas as formas e expressões de barbárie – desvela-se como tarefa urgente e fundamental. É preciso recompor a utopia de um mundo livre e igualitário, rompendo com os mecanismos de opressão e exploração. É preciso ainda recuperar o ideário de um homem autônomo, emancipado, singular, sensível e ilustrado, apto a pensar a existência, as relações e a vida em sociedade em uma dimensão ética, crítica, aberta e plural. Talvez essa seja a grande e imprescindível missão de nosso tempo. O que está em pauta é nada menos do que a própria concepção de cultura e humanidade.

 


 

 

 

 

 

 

Adelino Francisco de Oliveira é doutor em Filosofia pela Universidade de Braga – Portugal – e professor do Instituto Federal campus Piracicaba, IFSP.



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4 Comments on "Mediocridade e Fantasma do Fascismo."

  1. Muito bom professor Adelino.
    A tal luta que atravessa a história do ser humano.
    Por sorte, os ideais não morrem.
    Abraços.
    Sueli

  2. Adelino Francisco de Oliveira | 9 de novembro de 2017 at 11:37 | Responder

    Querida Sueli,

    Obrigado pela leitura atenta e pela oportunidade de interlocução. Precisamos perseverar nos ideais.

    Com amizade, Prof. Adelino

  3. Querido professor, que texto profundo e pontual. Vamos aos solavancos,repetidos tropeços. De olhos vendados, acreditamos enxergar. Que não percamos o fio da História, e que possamos encontrar soluções e solidez através da educação, da cultura e do fazer artístico.
    Um forte abraço.

  4. Eis que pelas águas do rio Léthê surge Caronte, conduzindo a sua barca. Na proa vem Cérbero, ameaçando e alertando com as suas três cabeças para os perigos das profundezas infernais. Que ainda possamos remar contra a correnteza… Forte abraço Adelino!

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