Lula. O que fazer, companheiro?

E agora? O que fazer? Como agir? O que sentir? Para onde ir? Milhões de brasileiros perguntaram-se as mesmas coisas, tão logo se soube da decretação da prisão de Lula na tarde desta quinta-feira – 5 de abril de 2018. Alguns mantem-se em letargia, outros repudiam – desejando bradar, rasgar todos os verbos possíveis. Muitos choram, com o coração em prantos. Outros questionam até onde vai o golpe contra as instituições democráticas do Brasil. Milhares estão pasmados e buscam formas de resistir e contribuir. São muitos os brasileiros que não concordam, não aceitam as injustiças cometidas. Outros, ainda, eventualmente, não sabem como lutar!

Compreendemos que a história é fluxo, movimento, transformação. Há retrocessos, recuo das lutas democráticas, direitos esfacelados, esperança vilipendiada. As transformações acontecem de maneira vertiginosa, o pensamento busca freneticamente acompanhar as mutações, as ideias tentam se organizar, as respostas insurgem – e não de forma automática –, muitas vezes com timidez, acuadas. Este é o movimento dialético? É necessário, também, elaborar alguns lutos, transmutar a dor em espírito de luta, crescer, avolumar, conquistar territórios, desbravar novos discursos, travar o embate ideológico. O que Gramsci dizia sobre a guerra de posição na sociedade civil e política? Pois bem: este é o momento oportuno para pensar os limites atuais e avançar para novas estratégias em todos os campos – trabalho, igreja, família, sindicatos, movimentos sociais, bairro, vizinhança… o embate reinicia-se na sociedade civil.

Como fazer? Por hora, a esquerda vê o grande líder, o incansável Lula, prestes a ser enclausurado, quase como preso político – nem o regime militar ousou fazê-lo com tanta desfaçatez! As forças reacionárias estão testando a paciência democrática dos cidadãos. Pois bem, a direita usa o seu blá-blá-blá ideológico, faz o papel do herói, do bom moço, do ético, do homem de família. Até quando isto convence? A esquerda e o pensamento crítico-vermelho têm a oportunidade de trabalhar este conteúdo, discernir o que está nas entrelinhas, nos meandros dos discursos mais absurdos, vazios e distorcidos. Fora que, para além do entendimento mais profundo, seguro e racional, os homens, mulheres militantes, guerreiros da esquerda são portadores de incomensurável criatividade, conhecem os espaços, o lugar da sátira, do bom humor e da seriedade. São de uma irreverência deliciosa e arguta. São empoderados, capazes de ousar, construir, chegar a qualquer labirinto do pensamento, à alma de muitas pessoas! Basta usar a boa estratégia e os momentos mais oportunos. Agora não seria o momento?

Possivelmente, é necessário – imprescindível – aproveitar-se de todos os laços, os coletivos, os grupos virtuais, toda energia, o vigor e a vitalidade das redes sociais, lançando esta incrível sociabilidade para as ruas, almejando visibilidade, reconhecimento e até certa desobediência civil – considerando que o pacto social foi quebrado? Um aparte: acho que até John Locke, o jusnaturalista, com todo seu liberalismo, pensaria desta forma!

Ocupar as vias públicas, engrossando as experiências democráticas, chamando todos os grupos para as calçadas, praças, parques, coretos – tudo o que é público e partilhado por muitos. Como fazer um chamamento desta envergadura e torná-lo permanente como uma vigília que se prolonga de forma imoderada? Difícil responder ante tanta dor, sofrimento moral, ético e emocional. Confio nos companheiros de esquerda: eles saberão o que fazer!

Fato é que estamos condoídos – talvez um sentimento de abandono –, revoltados, irados, indignados! Ótimo: usemos este espírito para lutar e travar as batalhas pelo projeto de sociedade que acreditamos! Não foi isto que o nosso querido Lula nos ensinou em sua gloriosa jornada por este mundo tão injusto e tão iníquo? Devemos estar convencidos desta realidade e deste propósito já que, por aqui, ninguém é adepto de Fukuyama para acreditar que chegamos ao final da história, não é mesmo?

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Maria Teresa Silva Martins de Carvalho é assistente social e autora do livro “Paixão de Cristo: paixão de Piracicaba”. 

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