Isso é falta de educação!

Isso é falta de educação!

por Yone Moreno

Dia 15 de maio de 2019 as ruas de várias cidades do Brasil foram tomadas por estudantes, professores e simpáticos à causa da educação deste país. As pautas que motivaram as manifestações são legítimas: o corte nas verbas destinadas a educação superior e básica, a suspensão das bolsas de pesquisa científica nas universidades, autonomia e liberdade de pensamento dentro das salas de aula e a reforma da previdência. Foi o primeiro grande ato do ano contra o desgoverno do atual governo, e como parte do corpo que se formou nas ruas neste 15 de maio de 2019, posso afirmar que as reivindicações partem de uma parcela da sociedade que tem pleno domínio das suas faculdades mentais, total implicação e responsabilidade com sua área de atuação na educação, e uma vontade imensa de lutar por esta causa independente do “ismo” ideológico do governo em questão.

Ocorre que muitos brasileiros não enxergaram essa manifestação como um ato legítimo e necessário, e tive o desprazer de ler frases que acusavam aqueles que foram para as ruas de “vagabundos”. Quando foi que lutar por educação virou coisa de “vagabundo”? Em que momento da história reivindicar seus direitos virou coisa de “vagabundo”? A resposta para essas perguntas me fez querer entender – e ESTUDAR, já que o assunto é educação – que sentimento é esse que invade o ser de um indivíduo que faz esse tipo de associação, e que acha que ela é correta. Percebam que eu digo ACHA ao invés de PENSA, pois, em artigo anterior minha crítica foi justamente sobre o exercício de pensar e refletir, exercício esse que não percebo sendo praticado por uma parcela da sociedade que reproduz suas opiniões com base nos “achismos”.

Mas voltando a busca do sentimento que mobiliza essas atitudes, encontro novamente na filósofa Hannah Arendt uma explicação – ou ao menos um alimento para minha inquietude. Arendt forja um conceito: animal laborans. O animal laborans, grosso modo, é o homem da sociedade de massa que serve ao trabalho e a existência árida, moralista e preconceituoso é indiferente aos vínculos e as trocas, aos conflitos e diferenças naturais à sociedade plural, crítica, questionadora e reivindicadora, passível de existir pela educação. O animal laborans serve muito bem aos governos autoritários, porque não pensa, não opina, ou quando o faz, é na corrente de ideias deste tipo de governo. Trago à baila o conceito de animal laborans de Hannah Arendt para criar uma analogia do comportamento desses tantos sujeitos que taxaram absurdamente os que foram as ruas por uma educação liberta de amarras.
Como apontado por Odílio Alves Aguiar, professor na Universidade do Ceará, discorrendo sobre a obra de Arendt, é necessário recuperar a política menos como fortalecimento do Estado e mais como provocadora da convivência plural entre os homens.

A sociedade plural só pode ser possível se a educação for encarada como a preocupação primeira dos que ocupam os cargos políticos de um país democrático, entretanto, o que percebo é a promoção cada vez mais objetiva de ações que vão contra a liberdade de pensamento e criação, e que por sua vez, contribuem para a alienação social.
Percebo inclusive que a liberdade de expressão tem sido confundida cada vez mais com falta de respeito ao próximo e aos seus direitos, visto que uma manifestação justa como a de 15 de maio tenha sido taxada como orquestrada por “vagabundos”. Neste caso, permitam-me dizer que isso é uma tremenda falta de educação, em todos os sentidos possíveis.

Yone Moreno é historiadora graduada pela UNIMEP.

(Foto acima produzida e cedida pela própria autora.)

1 Comment on "Isso é falta de educação!"

  1. “Como apontado por Odílio Alves Aguiar, professor na Universidade do Ceará, discorrendo sobre a obra de Arendt, é necessário recuperar a política menos como fortalecimento do Estado e mais como provocadora da convivência plural entre os homens.“

    Perfeito!

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