Hipocrisia: a gente vê por aqui. Ou Sobre a Moral Farisaica de Bolsonaro e Magno Malta

 Por esta razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne. Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu  ninguém o separe.

– Marcos 10, 7-9.

A deputada federal e cantora gospel Lauriete e o senador Magno Malta se casaram na última quinta-feira, 28 de março, numa cerimônia privada, realizada em Guarapari, Espírito Santo. A cantora Laurietefoi casada com o pastor e ex-deputado Reginaldo Almeida por 20 anos, e a separação entre os dois aconteceu meses após a cantora assumir o mandato como deputada federal. (…) Magno Malta também é divorciado

(Fonte: Gospel+)

O deputado Jair Bolsonaro casou-se três vezes. A primeira esposa foi Rogéria Nantes Nunes Braga, a segunda foi Ana Cristina Valle. E a terceira e atual esposa é Michelle de Paula Firmino Reinaldo.

(Fonte: noivacomclasse )

Autoproclamados defensores da família tradicional, os senhores citados acima precisariam esclarecer aos cristãos, em nome dos quais gostam de falar e junto com os quais fazem tanta questão de estar, o que entendem por família tradicional. Afinal, a família deles não se parece muito com a Sagrada Família… Ah, mas o Bolsonaro é católico – e os católicos, hoje em dia, aceitam o divórcio… Mas e os evangélicos, o que pensam sobre o assunto?

Para aqueles que adoram recorrer ao texto bíblico na hora de fazer discurso moralista, na hora de condenar homossexuais, na hora de atacarem feministas, seria bom prestar um pouco mais de atenção à palavra de Deus: “Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho de teu irmão” (Mateus, 7:5).

Esse negócio de ser literal quando apalavra de Deus” condena as condutas dos outros e ser relativista quando se trata de suas próprias condutas é um péssimo exemplo de cristão. Ou a palavra de Deus é imutável ou bem ela aceita modernizações. Mas, deve ser ou uma coisa ou outra. Não adianta ser morno. Parece que muitos cristãos esqueceram-se do que diz o livro sagrado: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosse frio ou quente! Assim, porque és morno, e nem és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca” (Apocalipse, 3:15-16).

Eu fico só imaginando o que Jesus diria aos senhores Magno Malta e Jair Bolsonaro, caso os encontrasse por aí, discursando em nome da família, da moral, dos bons costumes e em nome dos cristãos. Nesse sentido, há uma passagem que pula na minha memória: “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês: por fora, parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça” (Mateus, 23:27-28).

No caso desses dois senhores, não estou convencida de que nem por fora pareçam bonitos. Mas há pessoas que estão se iludindo com as palavras vazias e, pior, cheias de ódio, intolerância e violência por eles ‘pregadas’.

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Em tempo: a intenção desse texto não é fazer discurso religioso (até porque essa não é a minha posição), nem defender posições conservadoras sobre família ou qualquer outra esfera da conduta humana. Também não se apresenta como escárnio à fé de ninguém. A intenção é unicamente evidenciar a má-fé desses que se colocam acima do bem e do mal em nome desta ou daquela religião, mas não parecem estar muito preocupados em buscar coerência entre o que dizem acreditar e o que fazem em suas vidas. No limite, vejo tudo isso como um flagrante desrespeito com a fé alheia. Aliás, as incoerências desses são inúmeras – e a questão que aqui destaco, sobre a família, é apenas uma.

O texto bíblico, como diversos outros textos, pode ser interpretado e usado de muitas maneiras para defender diferentes visões de mundo. A escolha de que visão de mundo será defendida não é da bíblia ou de Deus, mas de seres humanos.

A apologia à violência, à intolerância, ao machismo, ao preconceito, à morte e à tortura, pode até encontrar respaldo na bíblia, mas é uma decisão de pessoas que, na busca pelo poder, não têm escrúpulos em distorcer ou manipular aquilo que, hipocritamente, chamam de texto sagrado.

 


 

 

 

 

Francine Maria Ribeiro.

 

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