Entre árvores e tantos natais.

Lá está ela, novamente, no meio da sala, a encher a casa de luz, de alegria e também de alguma nostalgia – por que não? A velha árvore de natal aqui de casa está quase na maioridade. Há dezessete anos ela invade o final do mês de novembro e surge radiante ao lado do sofá. Sempre penso que é cedo demais para montá-la, que talvez valha a pena esperar um pouco mais. Mas acabo cedendo ao desejo de ver a casa entrando no clima natalino e, quando me dou conta, estamos enfeitando a dita cuja.

Fico pensando que, se minha velha árvore de natal pudesse falar, certamente ela nos diria dos natais de outrora, de tudo o que ouviu, viu e viveu nas suas quase duas décadas. Penso que o relato de minha árvore daria conta de revelar as perdas, as tristezas e as alegrias desses anos todos. Daí, me invade a tal da nostalgia natalina e, sem conseguir escapar do clichê, lembro como eram diferentes os natais do passado. Havia no ar um quê de novidade, de expectativa, de ansiedade. A chegada do natal era um acontecimento. A casa ficava cheia. Gente que quase nunca víamos chegava de todos os lados. Tios, tias, primos, amigos, amigos de amigos, maridos de umas, esposas de outros, latidos de cachorro, o presépio se equilibrando sobre a mesa estreita no meio do povaréu. E a velha árvore lá, plantada sobre o mar sem fim dos cartões de natal.

As ruas e as casas no natal de antes também me parecem diferentes das de hoje. Acho que as casas, antes, eram mais vivas, mais alegres, mais iluminadas no natal. Me lembro de alguns anos em que um concurso anunciava que premiaria as casas e os edifícios residenciais e comerciais que melhor exibissem suas fachadas enfeitadas para o natal. Era uma festa. Lembro que saíamos de carro para fazermos, nós mesmos, o nosso ranking e nossas apostas. Então, rodávamos a cidade e inventávamos categorias, classificações, quesitos. Uma era eleita a mais singela. Outra, a mais estonteante. Outra ainda a mais natural. Depois, esperávamos pela divulgação oficial do resultado do concurso para vermos se ela batia com o nosso próprio resultado. E, sim. Quase nunca acertávamos.

As árvores, mesmo, também eram diferentes. Antes dessa minha árvore quase adulta adornar a sala, tínhamos em casa uma outra, ainda mais antiga, feita de madeira enrolada em fitas de cetim. De árvore, de fato, ela só tinha o formato. O mais ficava pela boa vontade do observador. Mas era colorida, e repleta daquelas bolas que, quando caiam no chão, se espatifavam completamente. Não havia um ano em que não quebrássemos ao menos duas ou três bolas. Depois chegou essa de agora, falando chinês e com bolas sem graça e inquebráveis. As luzes e o pisca-pisca também eram diferentes. Eram românticos, líricos. Acendiam docemente, sem tanto brilho nem exageros. Agora, os piscas de “led” iluminam a sala e o quarteirão.

Acho que a máquina de moer os dias nos faz chegar em dezembro exaustos. A cada ano, o desejo maior parece ser apenas o de estar vivo ao fim dos doze meses. A cada ano, parece que estamos mais sem forças, mais exauridos, e montar a árvore de natal tornou-se uma atividade que exige um esforço sobre-humano. Sei até de alguns conhecidos cujas árvores ficam prontas, montadas, o ano inteiro dentro do guarda-roupa – esperando apenas o natal chegar para saírem do armário. Não há rito. Não há celebração. Não há gostosuras natalinas. Cumpre-se apenas uma obrigação – e olhe lá. Por outro lado, felizmente, há ainda aqueles que – como eu – não se entregam à tabela dos dias e insistem em montar ritualisticamente a sua árvore de natal, seja ela a qual for. Mesmo que ela traga o sabor perdido em outros natais passados.

Pensando bem, talvez não seja o natal que esteja diferente. Talvez não sejam as pessoas que estejam diferentes, insensíveis. Talvez, como a minha árvore de natal, eu é que tenha envelhecido rápido demais. E, com o envelhecimento, a memória é que ganhou capacidade de criar e recriar ao seu prazer os natais de antigamente. Pode ser. Mas, também tanto faz. Bem ou mal, eu e a minha velha árvores estamos aqui. Prontos para vivermos juntos os dias que antecedem as festas. Prontos para, como sempre, passarmos horas lendo juntos, um ao lado do outro, os jornais dos dias e aquela lista de livros que, como sempre, também seleciono para os dias encerram e abrem o ano.

Velhos ou não. Cansados ou não. Cá estamos nós. Novamente. Vivendo mais um natal. Um natal novo, talvez. Mais comercial, mais capitalista, mais indiferente ao espírito do natal, mais cruel com o povo e com os menos favorecidos. Mas, e não poderia ser diferente, cheio ainda de possibilidades de se erguer, dentro de cada um de nós, a nossa própria árvore da vida, cheia do brilho intenso do qual todos nós tanto precisamos.

 


 

Alê Bragion é editor do Diário do Engenho



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