Em busca de um “milagre”: uma reflexão sobre os Evangélicos no Brasil

por Dr. Adelino Francisco de Oliveira

Não é simples compreender as formas de cristianismo no contemporâneo. Talvez seja até impossível elencar quantas igrejas cristãs existem pelo mundo. O Brasil configura-se como o país com o maior contingente de fiéis cristãos. No último censo do IBGE, de 2010, os cristãos somam 86,8% da população – sendo 64,6% de Católicos e 22,2% de Protestantes e Evangélicos. Em um olhar rápido e panorâmico pelas ruas e bairros da cidade, é relativamente fácil se deparar com uma infinidade de designações cristãs, abertas nos lugares mais inusitados – tradicionais cinemas, velhos galpões de fábricas etc.

Mas há uma expressão particular do cristianismo que tem crescido em fiéis e em visibilidade midiática – os cristãos pentecostais e neopentecostais. Com forte presença nas mídias, particularmente televisiva e radiofônica, o cristianismo pentecostal tem imprimido uma persuasiva maneira de evangelização e difundido uma ética cristã não alinhada com a mais que milenar tradição do cristianismo. É sempre complexo apontar, com alguma exatidão, os motivos que levam uma pessoa a se converter ou mesmo a transitar de uma igreja para outra. Mas há um dado sociológico importante, a indicar que, nos momentos de crise aguda, no plano político-econômico, as pessoas, já sem vislumbrar saídas e esperanças na realidade material, tendem a procurar mais as igrejas que prometem milagres. As vezes a vida pode se revelar tão dura, tão carente de possibilidades, que apenas um determinado tipo de fé religiosa, a ofertar o milagre ao alcance das mãos, consegue trazer algum alento e apresentar soluções. A visão teológica de base do pentecostalismo cristão – seja no âmbito Católico ou Evangélico – funda-se na perspectiva da retribuição e da prosperidade. O fiel passa a cultivar a crença de que a fidelidade de sua fé alcançará, necessariamente, uma retribuição por parte de Deus, que lhe concederá uma vida de prosperidade material. As dimensões da espiritualidade e vida interior podem acabar ficando secundarizadas ou até mesmo esquecidas, diante do anseio por retribuição e prosperidade. É evidente que há outros elementos na composição da fé pentecostal, que precisam ser também levados em consideração. No que toca a dimensão ritual, o que se percebe na maioria das igrejas cristãs pentecostais é um forte e intenso apelo emocional. O fiel, por meio da cadência de uma musicalidade efusiva, com ritmadas letras de conteúdo teológico bastante simples, é conduzido a uma experiência extática. As músicas, repetidas à exaustão e acompanhadas por gestualidades e até danças, normalmente fazem alusão a narrativas bíblicas do antigo Israel. Uma característica quase comum na experiência cristã pentecostal é a presença de mensagens impactantes, de autoajuda, cheias de efeitos morais. A imagem de um autêntico coach, o pregador, de maneira envolvente e carismática, passa a estimular os fiéis com palavras imperativas, que remetem ao sucesso, à prosperidade. Cabe a cada fiel, em um ato individual de fé, tomar posse de seu milagre. Superar uma vida marcada pela pobreza passa a ser apenas e tão somente uma questão de fé.

É legítimo o anseio por uma vida melhor, livre de dificuldades materiais e plena de possibilidades. Mas talvez seja importante ressaltar que a mensagem cristã – para além de arrebatamentos emocionais – contempla uma profunda dimensão ética, que passa por uma vida de amor e de serviço ao próximo. Toda experiência religiosa tem um conteúdo de representação simbólica, mas o pentecostalismo não pode esquecer que ser cristão é, sobretudo, tornar-se discípulo de Jesus Cristo, que foi preso, condenado e executado em um processo político fraudulento, por ter anunciado, em seu ministério, a aurora de um mundo livre de todas as formas de opressão e exploração, um mundo como o Reino de Deus – de comunhão, partilha de bens, solidariedade e paz. Eis o grande milagre revelado pelo Mestre.

 

 

Adelino Francisco de Oliveira é doutor em filosofia e professor no Instituto Federal campus Piracicaba.

 

(Imagem: Igreja Batista da Lagoinha, afiliada com a Convenção Batista Nacional, em 2016 Belo Horizonte, Brasil – Wikimedia Commons)

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