De Alcorão e Torá – de amor e paz.

 

 

 

Para

Jean Goldenbaum

Mohamed Ali Chaaban

 

Almacrônica dilatada-e-vasta. Quais os limites de teus campos cheios de flores, de teus mundos plenos de paz? Bondade-maldição que se recai sobre o cavaleiro-cronista em seu cavalo-palavra-alazão, responsável por lutar com palavras a luta mais vã e a testemunhar no verbo o que apenas o espírito viu-ouviu sorrateiro que esperto, pretensioso que presencioso. Almacrônica predestinada a ser a voz de quem não tem voz, a visão de quem de ver não faz nem tem mais nada. E como registrar o interdito, a interjornada da experiência contemplada? Como? Se só nos resta a palavra errada, a natureza torta da ideia letrada a perder-se em coragem diante da vivência animada. Porém, como não descrever a força herdada de vértices de histórias dadas, de encontros e acontecimentos sem-iguais. Almacrônica profetizada, não há como fugir da dádiva dos seus ais – dos idos e vindos dos dias, das histórias imortais de noites de amor e espada que o tempo não devolve mais.

A tarde era a de ontem, então. Mas parecia a do tempo. A cidade era Piracicaba, mas talvez fosse Beirute ou Jerusalém. Ou Tiro. Ou Nazaré. Ou Tel-aviv. O local era um restaurante-casa, pois de deliciosas comidas e doces risadas também se vive. Estacionei meu tapete-branco-voador logo na entrada. Poderia dizer que cheguei mesmo foi de carro – mas não prefiro afirmar nada. Afinal, no tempo de ontem, ido, na tarde-segunda de 18 de junho, tudo parecia sido construído por forças do bem contra mal. Tudo parecia protegido do choque do real sobre o não-real. Tudo parecia como as mil e uma noites, só que imortal. Mas era de tarde. E que tarde! Sentados à mesma mesa dessa casa-restaurante secretamente conhecida por tantos, meus amigos – em espantos – se entreolhavam com caras de “nada mal.” Um judeu e um árabe. Jean Goldenbaum e Mohamed Ali Chaaban. Jornadas distintas no plano do mundo-maior, por uma força-maior estabelecidas.

Abraço dado, beijo selado, abriu-se a arca mágica da aliança em cores sete. Sete pratos de maná, sete copos sedentos, sete apertos de mãos sobre o fogo a brotar do chão em que se apoiava a arca. Homus de histórias giraram nos pratos à nossa frente. Pães de personagens cresceram aos nossos ouvidos, assados os pães na brasa eterna da fraternidade. Nos nossos olhos, a areia do deserto formando monumentos de amor, oásis de temperança. Haveria ainda um cantar mediterrâneo? Uma voz a rezar cantando um salmo? Um melisma nostálgico? Um vai e vem gutural que vem do sal de mares eternos? Talvez. Fato certo é que havia aves voando a nosso redor. E havia canto de pássaros também. E licores celestes fervidos aos pés das grande árvores nevadas do Líbano.

Como poderia saber Piracicaba desse encontro ontológico, teológico, geográfico – senão pelas penas duras do ave-cronista que ora vos escreve ainda atordoado de oriente? Há uma crônica? Almacrônica. Cronicanção. Canção de amor e paz num mundo projetado sobre as patas de trás, produzindo sombras no ideal. E o encontro se deu e foi-se dando. Um árabe e um judeu. Tantas histórias, tantos casos, tantas vidas se desvelando a cada bocado de coalhada, a cada porção de tabule. Eram narrativas-tâmaras? Eram arakis-de-contos em contos de araque? Eram quipás de tradição ancestral sobre nossas cabeças? Era a cidade sigilosa, discretamente aprendendo que entre almas que são luz a escuridão é passado, verbo sob advérbio de modo ido. Ah! Ave, palavra-luz, presente maravilhoso sempre pronto a ser contado a todos – pois há sempre uma estrela divina sobre a noite funda. E lá estava eu, diante dela, um salmicronista a prestigiar a paz que se faz como um brilho riscado no céu azul.

E há tanto mais para contar. Mas o tempo? E a vida?

Que assim seja. Encontro narrado, feito o registro para o todo sempre. O mais é com Deus – seja ele ou ela quem for. Alá ou Adonai. O mais, é o amor – que entre a estrela e a espada em campo de paz e fraternidade, sob sol da minha amada cidade – no eterno, floresceu.

 

 

 

 

 

 

 

 

(Crônica publicada em A Tribuna Piracicabana desta quarta-feira, dia 20/06/2018.)

 


Alexandre Bragion é editor do Diário do Engenho.

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