Cézanne, inventor da arte moderna.

 

Hoje em dia a maioria das pessoas reconhecem uma pintura do Van Gogh (1853-1890) e até algumas do Picasso (1881-1973), mas poucas reconhecem uma paisagem do Cézanne. Paul Cézanne (1861-1906) é reconhecido por especialistas como um dos maiores pintores de todos os tempos. Ele não se enquadra em qualquer definição – seja impressionista ou expressionista –, absolutamente único. Dizem que tinha um gênio difícil. Preferia quase sempre estar sozinho e se você fosse um velho amigo, nada o impedia de, ao avistá-lo na rua, atravessá-la apenas para não ter que cumprimentá-lo.

Qual foi a grande sacada dele? Cézanne percebeu que a pintura dita “naturalista” que a academia projetava nos salões da alta sociedade francesa, ou mesmo as pinturas impressionistas, eram incapazes de expressar a natureza de maneira consistente. Admirava a brincadeira que seus amigos, como Degas, Monet e Manet faziam com a luz e seus jogos com as cores, mas sentia em seu íntimo que aquela natureza anunciada pelos impressionistas era demasiadamente fugaz, enquanto o próprio Cézanne sentia um peso quase insuportável cada vez que olhava ao redor.

No íntimo, Cézanne sacou que toda a realidade era, na verdade, uma construção. Que a pintura que chamamos erroneamente realista não passava de um truque matemático. Que a perspectiva óptica, vinda dos renascentistas, cuja maior expressão, ainda hoje, é a Santa Maria del Fiore de Florença (1296-1436) projetada por Filippo Brunelleschi (1377-1446) e Donatello (1386-1466), era capaz de descrever a realidade em termos de distância: quanto mais distante do ponto de vista do observador, menor é o objeto, mas, ao mesmo tempo, era incapaz de expressar o vivido nessa realidade.

No cerne da teoria da perspectiva óptica sumarizada no livro Da Pintura, publicado pelo humanista Leon Battista Alberti (1404-1472) em 1435, estava a ideia de que olhamos o mundo como quem olha as coisas através de uma janela. O quadro, a partir de então, se tornou uma espécie de janela para o mundo. As primeiras pinturas em perspectiva feitas por Masaccio (1401-1429­), por exemplo, lembram uma espécie de efeito tridimensional ao contrário, isto é, ao invés das imagens saírem da tela, como acontece no cinema 3D atual, elas parecem retrair-se para o fundo do enquadramento proporcionado pela moldura da pintura, como se estivéssemos vendo tudo através de uma janela.

Essa linguagem matemática que tanto encantou os renascentistas parecia a Cézanne um tanto quanto fria, pois incapaz de equacionar o elemento propriamente humano na experiência de ver as coisas. Nunca vemos o mundo apenas através da janela como se estivéssemos fora das coisas, pois nós mesmos estamos no mundo, rodeados pelas coisas. Se vejo algo que considero ameaçador, não importando a distância em que ele se encontra em relação a mim, maior ele parece. Ou seja, Cézanne percebeu que nós nunca lidamos com o mundo como um matemático lida com os números. Jamais vemos o número um ou dois na natureza, pois nós mesmos somos natureza e contamos entre as coisas.

O que ele intuiu foi que como existimos entre as coisas, elas são sempre opacas, quer dizer, estão sempre em relação com nossa história de vida. Assim, quando Cézanne queria pintar o Monte São Vitória não pincelava todos os detalhes e nem traçava seus contornos. Ao justapor um punhado de cores estrategicamente posicionadas, Cézanne percebeu que, aqueles que olhassem para sua pintura, veriam uma montanha. Nas suas pinturas as cores ganharam vida própria, deixaram de ser meras cores para ser colorantes. Mas por qual razão isso acontecia?

É que Cézanne era um verdadeiro filósofo da pintura. Ele descobriu o seu maior segredo: o espírito humano criador. Quando ele decidia pintar naturezas mortas, como maçãs, ele sempre deixava elas parcialmente incompletas. Por qual razão? Quando olhamos para suas essas maçãs, pairando sobre uma mesa, a nossa vivência acaba preenchendo, instintivamente, aquilo que falta: a memória afetiva de cada maçã que eu segurei nas mãos ou que comi produz em mim uma espécie de experiência espiritual em que preencho o vazio com minhas lembranças.

 


 

 

Rafael Gonzaga de Macedo é professor de História.

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