Cem dias Sem Governo

 

Desligue a televisão. Deixe a novela de lado.

“Cem Anos de Solidão” – o que diria o velho Gabo? – perdem feio para os cem dias sem governo da trupe que se instalou no Palhaços do Planalto. Sim, porque o circo chamado Brasil chegou ao ponto máximo do ridículo e da bandalheira.

“Cem dias de Alucinação” – esse deveria ser o slogan comemorativo em Brasília, nessa semana que ontem se findou.

Afinal, num raro momento de lucidez – raríssimo, mesmo – Jair Bolsonaro reconheceu nessa sexta (5/04) que, até aqui, deu “muitas caneladas” e que “não nasceu para ser Presidente.” Ora, ora! Louvemos aos céus tamanha capacidade de auto-conhecimento!

A lucidez momentânea de Jair talvez estivesse tomando por base o fato de que, em cem dias, ele não percebeu ainda que as eleições terminaram – e que ele, o Messias, por mais ridículo que possa parecer, ganhou as eleições. Sabemos que é difícil de acreditar, sabemos que vamos discutir isso ao longo dos anos e da história. Mas, sim, Jair: toma que o filho é teu! Com fakenews, com fakeada, com mamadeira de piroca e kit gay na veia de nosso povo emburrecido, você venceu – me caro! Agora, passados esses cem diazinhos, você já pode governar.

Talvez a lucidez momentânea de Jair, ao se autodeclarar não-apto para o cargo, venha de sua momentânea percepção de que, em cem dias, ele nada apresentou de objetivo para o país – a não ser um videozinho explicativo, no carnaval, sobre a prática do Golden Shower. Talvez a percepção momentânea de Jair sobre suas “caneladas” de zagueiro de time de várzea nasça, quem sabe, de sua rara-lúcida (bem rara) observação acerca da inépcia de seu governo em todos os ministérios, pastas e secretarias. Como se diz no interior de São Paulo: “vá saber”.

O fato é que, em cem dias no Palhaços do Planalto, de canelada em canelada, de golden shower em golden shower, de twitter em twitter, Jair deixou o MEC inoperante, brigou com o mundo árabe, provocou uma celeuma absurda sobre as raízes do nazismo, deixou a reforma da previdência a Deus dará, fechou ministérios importantes como o da Cultura e o do Trabalho(!), salvaguardou os militares com uma proposta de reforma da previdência utópica para a categoria, fez o dólar – numa sexta – subir como há muito não se via, cortou verbas fundamentais da saúde e da educação, abençoou ministros envolvidos em esquemas de corrupção, regou o laranjal do PSL, deixou seus filhos se meterem na presidência do país, brigou com a imprensa e a ofendeu, provocou a ira do Hamas e do mundo árabe, perdeu – para os EUA – parte das exportações do Brasil com a China, deu aos EUA as chaves da base militar de Alcântara, submeteu aos EUA o país inteiro de graça, falou bobagens, falou besteiras etc etc.

E “tudo isso” Jair fez ou viu acontecer enquanto, placidamente, passeava pelos EUA, Chile e Israel – para onde se encaminhou a fim de agradar aos eleitores evangélicos brasileiros e aos senhores feudais dos EUA, como não poderia deixar de ser.

Haja caneladas, Jair! Haja caneladas!

Por outro lado, cem dias de solidão e tristeza viveram aqueles que – preocupados e aflitos com o sem governo da nação – viram o Brasil se transformar numa Macondo tupiniquim liderada por um ex-capitão absolutamente despreparado para o cargo e rodeado de assessores incompetentes, lunáticos e obtusos.

De solidão em solidão, de tristezas e tristezas, quem ainda guarda um pingo de lucidez neste Brasil à base de Rivotril se pergunta até quando os militares no poder, o mercado e os empresários – que elegeram o desgoverno que aí está, escorados no moralismo tacanho de igrejas evangélicas conhecidas por pilhar o dinheiro e a boa-fé dos pobres – vão suportar conduzir as cordas de um títere cada vez mais perdido em cena, cada vez mais abobalhado e inconsequente.

É esperar para ver!

Ou pior: depois do fim era “Brasil-Rivotril acima de Todos” – fim esse já amplamente aguardando nos bastidores da corte – o que virá? Teremos um Mourão “paz e amor” como presidente? Tomaremos outras caneladas, então com coturnos novos e bem lustrosos?

Brasil-Rivotril acima de Todos!

Desliguem as televisões. Abandonem as telenovelas.

A comédia pastelão da vida real brasileira se faz cada vez mais ridicula – e absurda.

Viva o pastelão bolsonarista!

E aguardemos a próxima torta na cara do povo.

 

 

 

 

 

 

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