Carta a Camões Afortunado

 

Ah, Camões, que não sou, afortunado!

Minha voz parada, caro mestre, empresta de Miguel Torga seu lamento à portuguesa.  Mas quantos não-Camões, como eu, não o são? Milhares! Aos milhares e milhares outros não-Camões igualmente desafortunados se escrevem e se inscrevem às páginas mil dos periódicos do todo dia. O que fazer, se não somos Torgas nem muito menos Camões? Calar? Emudecer? Que fazer se da lusitana pátria cá nos fica no espírito um tom de imensa desilusão? Que fazer se da portuguesa alma cá nos sobra aos montes uma retórica castiça porque mal entendida, uma métrica parnasiana e falsa e aquele amor descarado que atira a esmo e sem piedade – em cada canto de papel a navegar sobre o mar infinito dos balcões e escrivaninhas – um sem-fim de luas rebuscadas, de musas exageradamente cantadas, de rimas a vazar pelos ladrões das estrofes? Ah, Camões afortunado, que não sou e que não somos.  Em que rosa dos ventos há um caminho para o teu engenho e tua arte? Qual a brumosa rota para conhecer tuas Ninfas?

Resta-nos, assim, dignamente, apenas a vontade de escrever – e de chorar. Mas também tu, ó Camões, chorastes bastante após dez anos de teu laborioso engenho. Afinal, após dez anos de sonhos e de lutas, dez anos de espreitadas empreitadas por mares de palavras nunca dantes navegados, descobristes que era perigosa a viagem por seus cantos e capítulos. Após dez anos, Camões, chorastes porque teu sonho de império ruiu – lascou-se como o lenho de uma caravela mareada, apodrecida, encracada. Apartado, então, das Ninfas, coube a ti cantar a derrocada de tua gente. Coube a ti, aquele que não sou nem somos, envergar o verso que mergulhava no mar português – doce e salgado – a ilusão do Quinto Império. (E agora, Camões – talvez tivesse lhe perguntado Drummond, tivesse sido ele seu contemporâneo –, você que faz versos, que canta, protesta, e agora Camões? Mas não. Ainda não havia Drummonds). A ti (ou a você, se o preferires), Camões, quedou-se a tarefa de encerrar sua (ou tua, já não sei…) epopeia a lamentar o fracasso de sua pátria. Mas e a nós, Camões? Quem nos cantará o nosso fim? Ah, Camões, que não somos, afortunados.

O pior, Camões (e se me permites a intimidade), é que sabe aquela história de glória pátria, de “futuro do passado”? Pois, é. Por aqui isso também deu errado. Até mesmo os sinais do Novo Mundo, que em versos tanto exaltou outro genial conterrâneo seu – o poeta Fernando Pessoa – por estes bandas agora virou coisa de gente à toa. Não me leves a mal, caro mestre. É que em nossa Terra de Santa Cruz quase ninguém mais te conhece – e o mesmo fato acomete, cabe dizer, a outros tantos, que, como você, ou como tu, por esmola, só são lidos, quando muito, em uma ou outra escola. Teus preceitos, teus presságios, teu medo do futuro viraram pano de fundo de um mundo totalmente obscuro. Mais do que isso – e tal como te aconteceu e aconteceu a Portugal – passados nosso dez anos de descobertas e enormes conquistas, tudo agora vai de pior a mal. Como Dons Sebastiões, nossos líderes morreram no areal de suas próprias ilusões. Achavam-se, como tais, ungidos por Deus. Mas foi o diabo que os atendeu. Agora nos vendem aos milhões, nos trocam a preço de banana – fruta que não sei se você conheceu. Em nome da ordem e do progresso, vedem nossas terras, nossas florestas, vendem áreas preservadas, campos por lei protegidos, vendem nossa energia, nosso trabalho – e nos dizem que tudo está dando certo, que tudo que eles fazem é um sucesso. Ah, Camões afortunado, já passou da hora de seu regresso.

Como tu, ao final de seu idílio poético, de ti também tristemente me despeço e relembro – nesses finalmentes de fatal desilusão – o lamento em poema que me chamou a ti nesta carta-quase-não. E, em desfecho, não te mostro – como faz o teu herói ao final de teus Lusíadas – a máquina que move o mundo. Porque a máquina que nos move o mundo, hoje, é feia e cheia de cifras que se fazem na Casa das Moedas (essa mesma, também prestes a ser vendida). Sem a Ninfa a me dar o teu engenho e arte, faço de meu (por pura falta de talento e opção)  o que de Portugal nos disse Torga, teu irmão no amor, por fim: “Ah, Camões, que não sou, afortunado! Também desiludido, Mas ainda lembrado da epopeia… Ah, meu povo traído, Mansa colmeia  a que ninguém colhe o mel. Ah, meu pobre corcel? Impaciente, Alado/ E condenado/A choutar nesta praia do Ocidente”.

 

Do Brasil que mal te conhece e conheceu.

Sempre teu.

Alexandre.


 


 

 

 

 

 

Alexandre Bragion é editor do Diário do Engenho.



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