A páscoa e a lua cheia – por Antonio Pessotti.

Moon

A semana em que estamos é marcada por uma profunda espiritualidade originária de duas religiões: o cristianismo e o judaismo. Não à toa, ambas tomam como referência a lua cheia para marcar seus calendários. Afinal, o cristianismo herdou muito da tradição judaica – como o próprio jeito de marcar os dias, ou melhor, de definir tais calendários.

O dia 14 do mês de Nissan, no calendário judaico, marca o início da primavera, dos tempos de fartura, da memória da saída do povo judeu do Egito. Para o judeu, essa é uma data importante, pois entramos no período da Pessach, a páscoa judaica. Nesta semana, dos dias 15 a 21 de Nissan, comemora-se esta que é a mais importante festa do judaismo.

Inter-GravissimasPara os cristãos que adotaram o calendário gregoriano, esse dia cai entre os meses de março e abril. A data exata varia porque é ela definida pela primeira lua cheia do ano judaico, ou melhor, a quarta lua cheia do calendário gregoriano. Daí o motivo de se ter datas móveis para essas festas todos os anos, pois a data da festa judaico-cristã é móvel, definida pelo calendário lunar. No entanto, outros cristãos adotam outro calendário, o juliano, e, por isso, são considerados vetero-calendaristas. Dentre eles estão os cristãos ortodoxos, que mantêm sua tradição religiosa de acordo com esse calendário – assim mais próximo do calendário judaico.

jesus e a luaNeste ano, a lua cheia – que marca tal data – ocorreu na terça-feira (14/04), não no domingo. Logo, a páscoa cristã ocidental não coincide exatamente com as tradições judaicas, nem com as tradições cristãs orientais vetero-calendaristas. O domingo de páscoa ocidental será de lua minguante. Mais interessante, a lua desta semana teve um fenômeno a mais: a lua de sangue, ou melhor, o eclipse lunar – que poderia ter sido visto (não fosse a chuva e a neblina) entre três e quatro da madrugada de segunda para terça-feira. Nesse eclipse, a lua ficou encoberta pela penumbra da atmosfera terrestre, apresentando cor avermelhada (também devido ao nível de poluição do ar!).

Independentemente de possíveis interpretações sobre esses fenômenos astronômicos – e sob quaisquer pontos metafísicos – é necessário realçar a importância que esta data tem para todos os que buscam a paz. Para os judeus e para os cristãos esta data remete ao momento de reflexão e esperança, e simboliza – de certa forma – “que dias melhores virão,” e que a redenção tão esperada chegará. Mas é preciso começar de algum lugar, e que esse lugar seja primeiro o interior de cada ser humano – importando-se, sempre, com o seu próximo. Sem o respeito a si e ao próximo não existe sociedade organizada. E, mais que uma lua de sangue, sem respeito teremos cada vez mais corações sangrando, pessoas morrendo pelo descaso e pela omissão. “Somos responsáveis por aqueles que cativamos” – já escreveu alguém nas escrituras sagradas, não é?

Feliz páscoa a todos!

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pessotti

 

 

 

 

 

Antonio Carlos Silvano Pessotti.

Apaixonado pelo canto gregoriano e litúrgico-histórico, é tenor – pósdoutorando em física-acústica pela USP, doutor e mestre em linguística pela Unicamp e bacharel em canto, também pela Unicamp.



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