A Memória Perigosa da Páscoa Cristã

 

O movimento de Jesus Cristo, em seu profundo desenvolvimento, vislumbrou tanto a transformação no âmbito da ética, quanto no campo da política. No plano ético, a mensagem cristã propõe uma radical mudança de mentalidade – metanóia, no termo grego –, convidando cada indivíduo a assumir em suas ações a perspectiva do amor e do serviço ao próximo. No espaço político, a proposta cristã avança para a construção de uma nova sociedade, fundamentada no direito e na justiça, livre de todas as expressões de opressão e exploração.

A ética do movimento de Jesus rompe com as formas arraigadas de exclusão, próprias de seu tempo histórico. São fartas as passagens nas quais Jesus defende os pobres, a viúva, as crianças, a mulher prostituída, os deficientes, os doentes, os idosos, os estrangeiros etc. A ética do amor e do serviço funda a sociabilidade cristã, que não estigmatiza nem excluí. Deste elevado princípio ético, desdobra-se uma original representação política, sedimentada na noção do poder como serviço e na comunhão, inclusive dos bens materiais. Esta interessante experiência das primeiras comunidades cristãs encontra-se relatada no livro Atos dos Apóstolos, capítulo 2, versículos 44-45: “Todos os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade.”

A força da mensagem cristão, o anúncio querigmático da Ressurreição, contempla o humano de maneira íntegra, alcançando todas as suas dimensões. É uma mensagem que convida à conversão, a uma mudança profunda e radical de mentalidade, de maneira superar todas as formas de preconceito e discriminação. É também uma mensagem que apresenta uma perspectiva de transcendência para vida. A medida das decisões não deve ser a mera materialidade das coisas, que são transitórias e efêmeras. A contemplação da transcendência passa a definir os rumos e critérios que a vida deve assumir. É ainda uma mensagem de intenso conteúdo social, político e econômico, na dimensão em que aponta para o projeto de uma sociedade de elevada justiça, atenta e sensível ao sofrimento dos mais vulneráveis.

Há uma memória perigosa na celebração da Páscoa cristã. Memória de um movimento político-religioso, que contempla um projeto de vida em abundância para todos, a partir da experiência fundante do amor, do serviço e da comunhão fraterna. O impactante querigma – mensagem, do grego – da Ressurreição tem o sentido de ressaltar que o projeto anunciado pelo movimento de Jesus não se esgotou com a crucificação. Dizer que Cristo ressuscitou significa também afirmar que tudo que Ele ensinou continua vivo, no coração de todo aquele que assume a causa da justiça, do direito, da liberdade e da paz. Na revelação cristão, a vida espiritual – a profundidade do encontro consigo mesmo e com a transcendência – e atuação política libertadora são realidades indissociáveis.

Cumprindo uma importante função social e cultural, de reminiscência dos eventos que remetem à paixão, morte e ressurreição de Jesus, a encenação Paixão de Cristo de Piracicaba, idealizada pelo Grupo Teatral Guarantã, há 30 anos procura recompor os últimos acontecimentos da vida de Jesus, com criatividade artística e liberdade cênica – mas com acurada pesquisa histórica e teológica. Sob a direção de Marcos Thadeus, a Paixão de Cristo, do Grupo Guarantã, faz um interessante e sugestivo resgate do período da infância de Jesus e ressalta o caráter atual da mensagem do Cristo, ao ousar apresentar um Jesus afro e dar singular destaque para o protagonismo de lideranças cristãs femininas. A ênfase às Bem-aventuranças, no contexto do assim chamado Sermão da Montanha (Mt 5, 1-12), evidencia a opção cênica por uma perspectiva mais política, apontando o caminho da comunhão e da partilha, em contraponto a uma sociedade desigual e profundamente individualista, alicerçada na ética privatista da acumulação e do desperdício.

Em tempos estranhos, marcado por revisionismos históricos e perspectivas negacionistas lunáticas, talvez já se pleiteei, em algum ministério, negar o sentido mais profundo da própria Páscoa, de maneira a esvaziar seu conteúdo ético e também político. Neste contexto, a encenação da Paixão de Cristo, do Guarantã, como uma relevante manifestação cultural, revela-se um instrumento imprescindível de comunicação e difusão de uma verdade e experiência que não podem ser caladas, nem esquecidas.

A celebração pascal fala, sobretudo, de vida. Vida que suplanta todas as formas de exploração, opressão e morte. A Páscoa de Jesus não deixa de ser um convite para se repensar a vida, no que há de mais cotidiano, bem como as próprias dinâmicas sociais. Em um contexto em que a vida tem sido ameaçada por artimanhas de uma política neoliberal diabólica, os cristãos são chamados a se levantarem, impactados pela Ressurreição, em um vasto movimento em defesa da vida, particularmente da vida dos que se encontram em situação de maior vulnerabilidade. Que com a Páscoa desponte também a aurora de um novo tempo, delineando outras perspectivas existenciais, em um cenário de uma política renovada, comprometida com a justiça e com o direito.


 

 

 

 

Adelino Francisco de Oliveira é filósofo, doutor em Filosofia pela Universidade de Braga – Portugal – e professor do Instituto Federal campus Piracicaba.

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